Talvez o Mar Raro Seja Saudades do Futuro

Terça-feira, Junho 23, 2009




É tudo aridez e estamos em pleno mar, eis que chega a solidão do tédio dos que tem tudo. E nada muda. Uma sucessão de bom dia e boa noite e rugas ramificando nessa entediante cara que já não suporto olhar. Logo para quem quer tudo no próximo minuto, novo e renovado. Hão de propor uma greve de clichês e um dia em que todas as escolhas possam ser refeitas sem consequência dos fatos, uma porralouquice em nome da lucidez. Onde estão as pessoas que nos viram a cabeça? Onde está o erro que procuro, minha culpa de estimação? Onde está a cama que dormirei sem dar notícias ao mundo, onde está o ventre que gerará a pureza do mais sórdido e delicioso deleite?



Em que igreja ou puteiro está o meu pecado e qual o nome desse demônio inquieto que meu corpo enclausura? E por mais que eu ande é nas curvas das suas coxas que vou me encontrar, que vou deitar minha alma vagabunda, preguiçosa e inquieta para os atos mais ordinários e causar essa culpinha de frescurinha, só para humanizar. Mas não me deixe nessa vida de bunda, por nada. Caguemos na moral e creiamos que certo e errado são apenas indicações do nosso prazer. Chega de perder tempo em nome de nada, chega dos caminhos que escolhemos, chega da sensatez tediosa, da melancolia com cara de babaca, que faz posar de depressivo quando o que se mais deseja é gozar em rios de alegria e prazer.



Faça assim, afaste de mim as bebidas clean's, abaixo o modo cool, livre-me do bom senso, das palavras dóceis, fuja do meu controle, me mande fuder duas vezes ao dia, minta descabidamente, deliberadamente, seja profana, leviana, adúltera e depois faça carinha de menina e diga que foi sem querer. Quebre meu protocolo e não se importe com as coisas que eu disser que são importantes, me descontrole. Faça uma cenhinha, nem que seja de mentira, faça uma arenguinha nem que seja pra passar o tempo. Engravide e perca meu norte, faça com que eu não saiba o que fazer das minhas mãos só por causa das tuas; não se preocupe comigo, nem com minhas consequências dramáticas de homem carente e extremado, brinque. E quando eu me declarar loucamente, perdidamente apaixonado, apenas me ligue no dia seguinte para confirmar se ainda te amo. Só não me deixe nesse marasmo, com essa cara de cu no espelho e com essa realidade que já não suporto de há tempos.



E você que se esconde por trás dessa cortina cretina de sub-vontades, tira logo essa calcinha porque eu não tenho o dia todo, e não quero, nem vou, brincar de gato e rato. Sem nomes, sem doces, tudo às claras e sem roupa, em silêncio de gemido, em barulho de gozo, em fim de começo, enfim começando: algo sem precedente, algo sem propósito, algo sem lógica, algo sem roteiro mas de fim claro, matar o tédio dessa vida sedentária; para que no quando nem tudo seja aridez enquanto estivermos em pleno mar, e que a força da necessidade abrigue cada dia do nosso corpo vivente e amante.

EFEITO COLATERAL 3º - da série cínicos

Quinta-feira, Maio 28, 2009


SÉRIE CÍNICOS

O dia ia no começo quando Argemiro entrou na cozinha com ar grava, voz pausada e face densa.


__ Cheguei a uma conclusão!
__ Que bom! - disse Rose, olhando pra dentro da carteira, com uma indiferença ímpar.
__ Mas você quer saber o que é? - Argemiro estendeu os braços em revolta.
__ Não!
__ Como não?!
__ Argemiro meu lindo, há coisas que eu quero saber e há outras que eu não quero saber, suas conclusões eu não quero saber.
__ Mas nos toca...
__ Ainda pior... oh meu filho, falta uma hora para fechar o mercado, você vai à feira ou vai continuar entupido com essa conclusão que não interessa? Diga logo pra eu escolher meu traje, ou mercado ou praia...
__ Eu nunca pensei sobre essas coisas e quando resolvo discutir nossa relação, por em aberto meus pontos de vista você me sufoca e me deixa mudo, com essa mania de praticidade. Logo você, tão intelectualizada, uma pessoa do mundo tratando coisas sérias como uma radicalista.
__ Queridinho, eu não quero homem pra fazer tese de doutorado... eu andei as lacunas do conhecimento, quase me acabei de fumar maconha no curso de letras, quase virei lésbica porque era um símbolo intelectual na faculdade, pra ser inteligente naquela época tinha que ter chupado uma buceta; namorei os tipos mais chatos que ao invés de transar forte, como se deve ser, queriam me falar da importância pop dos Beatles na indústria do entretenimento, logo pra mim que acho os Beatles um saco! Até encontrar você. O tipo comum, gosta da libertadores da américa, é rubro-negro doente, não lê nem bula de remédio, transa gostoso, tem uma ereção muito boa, tem uma boa conta bancária e não ronca. Perfeito! E agora você vem bancar o filósofo existencialista de última hora? Tenha santa paciência!

De súbito um barulho semelhante ao arrastar de uma cadeira calou Rose que falava enquanto arrumava a cozinha.

__ O que foi isso, Argemiro? - questionou olhando firme.
__ Um peido! - disse em tom baixo, um tanto envergonhado.
__ Graças a Deus! - gesticulando ao ceu.
__ O peido? - estranho
__ Você voltou meu querido, eu já tava pensando onde iria comprar a mala pra ir embora e em que canteiro de obra eu iria procurar meu próximo namorado. Ainda bem que você voltou. Porque macho que é macho não controla um peidinho. Sufoca uma conclusão de vida, mas não nega um peido.
__ E um peido faz isso tudo?
__ Esses efeitos colateriais, queridinho, dizem mais que todas as palavras juntas.
__ É melhor irmos à feira logo... colocou cerveja e parafusos na lista?
__ Coloquei... e só por curiosidade femnina: qual era essa tal conclusão?
__ Sei lá, esqueci, você deixa meio tonto...
__ É assim que você é perfeito, Argemiro, esquecido e meio tonto!

L'esprit de L'escalier

Segunda-feira, Maio 04, 2009


Não há voltas. Não há resgates. Tudo já passou e não resta nada de antigo a ser dito ou visto. As mesmas caras de antes já não são as mesmas; são novas caras envelhecidas e os mesmos problemas de sempre são sempre novos problemas, enraizados, piorados, ressentido: mas volta não há! É tudo novo, até o gosto da azeitona roxa da infância distante é mais ou menos doce que antes. Mas não é a mesma! Algo se quebrou e o menino se perdeu.

Vi de muito longe a criança descalça que corria inventando cidades e correndo atrás dos papagaios de seda e paleta de coco, o menino que sonhava em conhecer o mundo no balão de Júlio Verne, ele passou na minha frente de olhos verdes e sorriso fácil, ele me olhou, riu de mim, como quem goza de um tolo. Eu queria tocar na sua mão, afagar seus cabelos lisos e assanhados, rodar o peão com ele, subir a pipa outra vez, mergulhar nos lagos do Golf Coutry Club, rir dos deboches dele, das traquinagens mahosas e das histórias que ele inventava. Senti de perto o cheiro de alfazema dos banhos no fim de tarde, vi todas as brincadeiras noturnas: pega-esconder, barra bandeira, academia… eu ali parado, olhando, ele lá correndo, rindo de mim. Ele poderia ser eu indefinidas vezes no eterno retorno que só as entidades do passado tem direito, e eu figura do presente, estando condenado a passar e nunca mais regressar, hei de ser sempre figura de chacota. A única eternidade é o passado, como numa fotografia: imóvel e melhorada no sentimento que escorre.

O nariz aponta para onde a ponta do sapato se dirige e o próximo passo é o que ficará na galeria dos imortais e tudo já passou, menos o menino que corre e corre, descalço nas ruas de terra, correndo atrás do bom vento dentro do meu coração; no momento em que sou pai, filho e menino. Subo no balão do minha infância, mesmo envelhecido, sonho sonhos pueris e continuo rindo de tudo como se nada fosse mais sério que a pipa que sobe. Sentindo que na verdade tudo já passou!

VAMPIROS MODERNOS

Domingo, Fevereiro 22, 2009



Como são estreitas as ruas em que as pessoas andam, como são lentos os passos das pessoas, como são fracos os desejos e como são incontíveis as vontades abortadas, que se pode definir um homem pela quantidade de frustrações; numa idealização inversa da lógica inicial: “eu quase fui isso…”, “menos mau, pior fui eu que por pouco não fui isso e não fui em tal lugar…”, são os diálogos dos impossibilitados por falta de tesão. Triste é saber que se bastam, que se encerram nessa punheta de pau mole. Nos trâmites burocráticos, nos carimbos, nos protocolos, nos cerimoniais para formalizar o banal e valorizar o que não tem valor, passar o tempo e esconder essa falta de paixão, que suprime a velocidade do querer profundo, da ardência na cadência do incontrolável.


De verdade poucos corações pulsam, poucos paus sobem, poucos corpos ardem, pouco sangue corre nas veias, sobra a linfa, que não é nem sangue nem soro, sobra muito sabor agridoce, indeciso e perdido num sabor indefinido, sobra soro caseiro! Mas há os que precisam de grappa em doses grandes, que precisam de cafés fortes, que precisam de comidas picantes, que não toleram beijo sem paixão, sexo sem tesão, raiva sem fúria, que precisam de atitudes e posturas definitivas, há sempre os que querem posição, sem julgamento ou juízo de merda de valor, há os que sabem que o único valor vivo se resume em: estou bem e não estou bem. Há os vivos que precisam de vida.


Esses são vampiros modernos, que sugam o mel do melhor daqueles que o rodeiam, como presas ao pescoço dos que se deixam seduzir. Vampiros são sedutores, pessoas vivas também, e vivem da vida que dão, e bebem do vinho que fazem, e gozam do sexo que constroem, e conseguem tudo, menos a paixão, porque essa independe do vampiro, essa precisa exclusivamente daqueles lhe tem o sangue roubado, o ciclo não se fecha, o vampiro se faz eterno por não se encerrar em paixão, por ser fundamental pela vida que rouba e recicla. O vampiro é um traficante de vida para os viciados, que mortos em sistema, precisam dessa picada de tesão para continuar. Não se pode apaixonar-se sem admiração, por isso não há nunca de haver paixão entre traficante e viciado, entre vampiro e presa. E nós andaremos construindo nosso ninho no pico da tempestade e andaremos lado a lado, cadáveres adiados, brochas e frígidas de vida, traficantes de mel e vampiros anti-sanguinários. Tu morreras, porque assim já nasceste, eu condenar-me-ei a traficar tesão e sugar o teu melhor para manter meu supremo desprezo por ti e correr o mundo todo com a lividez de quem não morrerá, buscando em cada esquina nova, em cada país desconhecido, em cada quadril suculento o ponto específico onde a vida se quebrou!

LETÍCIA NA CASA DE ESPELHOS

Quarta-feira, Janeiro 14, 2009



A princesa bailarina Letícia era a mais bela de todas, tinha os olhos mais vivos que o sol quando entrou na casa de espelhos. Era um labirinto com muitos espelhos que refletiam todo seu pequeno corpo de menina e seu vestido armado de bailarina, logo na entrada havia muitas caminhos e a bailarina não sabia qual entrada seguir, mas sua coragem era maior, sem pensar muito escolheu uma das entradas. Andou devagar, porque sua imagem em tantos espelhos a deixava tonta, até que um enorme pássaro azul de penas longas e já muito velho se aproximou:
__ Bom dia, linda princesa, posso ajudar?
__ Bom dia seu pássaro, acho que pode sim, estou perdida!
__ Mas onde queres ir, menina?
__ Estou procurando o dia, o senhor sabe onde posso encontrar?
__ Interessante, sabe que eu já sou um pássaro muito velho mas nunca vi o dia pessoalmente...
__ Será que ele existe?
__ Oh, minha princesa! Claro que existe, não vês que o dia está claro? Se está claro ele existe. Sabe princesa, nem tudo que existe tem que ser visto, algumas coisas são como o dia, lá estão e não precisam se mostrar para provar.
__ Ah seu pássaro, se senhor não sabe onde está o dia, dê-me licença pois não posso perder tempo, já já anoitece e eu só tenho hoje para encontrá-lo.
A princesa se apressou ainda mais e virou numa entrada às pressas para se perder do pássaro azul. O que ela não contava era encontrar um lago de espelhos que refletiam o céu e o sol. Ao invés de água o lago tinha espelhos no fundo e ao redor também. A luz do sol era muito forte e ninguém conseguia ficar de olhos abertos, a princesa de olhos fechados sentiu um toque nas costas.
__ Quem está aí?
__ Sou o esquilo da Casa dos espelhos e tu quem és?
__ Eu sou a princesa bailarina, tu não consegues me ver?
__ Eu não, princesa, sou cego!
__ Cego? Mas como tu consegues encontrar os caminhos?
__ Há situações princesa em que é preciso fechar os olhos para enxergar melhor. Por exemplo, deves ter os olhos fechados agora.
__ Sim tenho, quando abro dói meus olhos...
__ Não se preocupe, todos ficam assim no lago dos espelhos. Eu te ajudo, por cima dos espelhos há pedras que estão a distância da tua vontade...
__ Como assim?
__ É simples, tu vais te concentrar no que tu queres muito e vais saltar, cada salto vai exigir que tu pense forte no teu desejo e só assim vais conseguir pular certo! Estás pronta?
__ Sim, lá vou eu... - a princesa pulou até o penúltimo degrau com facilidade, mas pensou no pássaro e como foi mal educada com ele em não querer continuar a falar, teve pena e desconcentrou-se da sua vontade e quando pulou apenas um pé chegou à última pedra, escorregou e ficou pendurada por uma mão, o esquilo sentiu e gritou: “pensa com o fundo do teu coração, princesa. Só o desejo do fundo do teu coração pode te dar força”. A princesa lembrou das palavras do pássaro e sentiu o dia ao lado dela, como se a tivesse empurrando pelas costas e ajudando a subir na pedra de vidro. Subiu a outra margem, tentou a abrir os olhos rapidamente para ver o que a tinha empurrado, mas a claridade a fez fechar novamente...
__ O senhor viu?
__ Sou cego princesa, esqueceu?
__ O dia me empurrou para cima da pedra... quando senhor disse para pensar no meu desejo eu pensei no meu maior desejo: conhecer o dia. Eu pensei nele forte e ele me ajudou...
__ O dia? Não princesa! Não está ninguém aqui além de nós!
__ Como o senhor sabe, se és cego?
__ Enxergo melhor assim princesa, porque enxergo com meu coração e consigo ver o que as pessoas sentem. O que te ajudou foi tua vontade de conhecer o dia, isso te fez mais forte, tudo que vem do coração tem uma força imensa.
__ Mas era real, me tocou!
__ Princesa, nem tudo que existe pode ser visto, mas pode nos tocar. Algumas coisas muito grandes só podem ser sentidas... Agora preciso ir, tenho muitos caminhos por seguir.
A princesa o queria abraçar, mas não sabia onde estava o esquilo, foi segurando nas paredes até um outra entrada, arriscou abrir os olhos e conseguiu, mas ficou muito triste porque o esquilo já tinha ido embora e já não podia voltar. Já ia no meio da tarde e a princesa correu ainda mais porque o tempo estava acabando. Até se deparar com uma porta muito grande e fechada. Ao lado tinha uma pequena abertura onde uma fileira de formigas levavam comida. A princesa se agachou, ela era um gigante na frente das formiguinhas, todas fugiram com medo da enorme bailarina.
__ Não tenham medo formiguinhas, eu só quero uma informação.
__ Oh Dona, a senhora quase mata formigueiro do coração – disse uma delas com a mão no peito. - A senhora desse tamanho acaba conosco.
__ Mas eu só tenho cinco anos e sou uma princesa, não machuco ninguém... - disse assustada.
__ Muito prazer princesa, eu sou uma formiga fiscal, tenho trinta e cinco dias e já sou bem velho, estava botando a fileira em ordem, agora tu acabaste com meu trabalho.
__ Desculpe-me, eu só queria saber como passo por esta porta, o senhor não sabe onde fica a chave.
__ A chave eu nunca vi, aliás todo que passaram por ela não usaram chave. - disse balançando a cabeça em sinal de não.
__ E agora, não tem um senhor que abra a porta?
__ Também não, mas a passagem por ela passa pela placa que está lá em cima, consegues ver? - apontando para cima.
__ Espera, agora sim, vejo... “porta dos encontrados”. O que isso quer dizer?
__ Só passa por ela os que encontram o que deseja.
__ Mas eu não achei meu desejo ainda! - disse muito triste.
__ Será, princesa? Pense bem!
__ Quero conhecer o dia e não conheci ainda. - disse decepcionada.
__ Como não? Sabe, princesa, nós vivemos nesse labirinto e sabemos de tudo, tu vens desde o começo até aqui; encontraste nosso amigo mais velho, o Seu Pássaro Azul que mostrou que nem tudo que existe se vê. Encontraste nosso esquilo, o melhor guia deste labirinto e ele te mostrou o que teu desejo é tua maior força e que se desejar profundo tudo se torna realidade. E deixe eu dizer mais, o dia, Princesa, é como o amor, ele existe, tem sinais, tem cor, tem cheiro mas não tem cara, não adianta procurar porque ele não tem uma face. Tem que sentir dentro de ti, encontrar tudo isso dentro do teu coração e todas as portas se abrem.
A princesa sentiu-se perdida, mas aos poucos entendeu que o dia esteve ao seu lado o tempo todo, só pode andar pelo labirinto porque era dia, aprendeu com os animais sábios porque era dia e sentiu a mão do dia a ajudando porque sentiu do fundo do coração. Sentada à beira da porta fechada descobriu que não precisava ver a cara do dia, ela já conhecia muito bem, ficou feliz, muito feliz por saber que era amada pelo dia mesmo sem o ver e tomou um raio de sol, que caiu sobre testa morena, como um carinho delicado. Sorriu de contentamento e a porta num passe de mágica se abriu. A princesa disse adeus a formiga apressada, que lhe respondeu:
__ São horas princesa, meu tempo é muito pouco, uma hora sua é para mim vinte dias de vida. Adeus princesa!
Ao longe a princesa Letícia ouvia a mãe chamar, bem de longe:
__ Está na hora de tomar banho, Letícia.
De súbito ela acordou do sonho, procurou a formiguinha, a porta e os espelhos e não viu, mas viu pela janela da sala o dia que estava indo embora, dando lugar à noite, sorriu e teve a certeza de que o sonho foi mais real que a realidade!

AINDA AGORINHA

Quinta-feira, Janeiro 08, 2009



Então me diz, faz tempo agora?


O silêncio das palavras gritadas à exaustão faz par com o cheiro do corpo que se foi recentemente. Ainda é possível ouvir o que já não há e cheirar a ausência. Ainda tem na cama a marca do seu peso, no espelho ainda se condensa em água o vapor do seu banho e fios de seus cabelos entopem a banheira. Ainda perfura os ouvidos seu choro contido, seu soluço calado, ainda ecoa a batida da porta. O pedido de desculpa vem à boca quando ainda existe sua sombra de costas, o secador de cabelos quente, o ferro de passar ainda aquecido e da cozinha vinha o cheiro agradável do seu pão torrado. Sua xícara de café ainda estava morna, seu batom na borda era mole ainda, ainda ouvia-se seu telefone tocando ao longe. A face carregava as contrações da última gargalhada. Ainda não dava para sentir saudade.


A palavra ainda agredia violentamente, a paixão ainda oscilava entre asco e desejo, ainda era de corpo ardente e suas mãos vazias faziam uma sombra pesada nas costas, era possível sentir sua respiração na nuca, era audível seu sussurro de insegurança, era bem nítida minha cara habitual disfarçada de indiferença, era de tinta fresca sua assinatura no presente, as frases que não foram ditas estavam afiadas para sua volta, um misto de tesão e prazer estavam crus. Ainda ensaiava caras e gestos para seu retorno e recolhia uma camisa que você tinha deixado cair, era tão viva a necessidade de nunca mais dizer te amo, era tão viva minha incapacidade de o fazer.


Mas era tudo de instante, pelo calor do aqui e agora, no turbilhão da agonia que não deixa pensar direito, que não permite à luz da razão uma fresta. Tudo pedia atrito, de palavras, de gestos, de poses, de sons, de silêncios, de corpos, de ironias, de sarcasmos, não importava ao certo, só a fricção como representação de vida pulsante. Nas atitudes imediatistas e na inconsequência: do maior efeito possível no menor tempo permitido; porque depois até a birra quente precisava ser passageira e rapidíssima, os corpos eram frescos e tinha uma única pressa: consumar seu encontro. Seus olhos azuis eram mais bonitos com lágrimas, tinha um brilho divino e redentor como o do momento derradeiro. Foi secando de leve sua saliva nos meus lábios que fui à janela a espera do seu regresso imediato, da sua fúria momentânia, das suas palavras impensadas pelo calor da hora, pelos seus gestos mimadas de quem teve tudo quando quis, dos seus argumentos frouxos levados pelo convencimento fugaz, por sua postura hermética de cinco minutos, pelos seus eternos que não duravam uma hora, pelas suas promessas de morte que morriam na primeira meia hora, pela sua palavra definitiva que não suportava uma ameaça infantil. Vi-te pela janela encobrir-se na esquina, foram doze segundos de paixão e hoje já faz doze anos que não te vejo!

Então me diz, faz tempo agora?

CANAL

Sábado, Janeiro 03, 2009




Dos que tem fome eu quero a pressa, dos que tem sono eu quero a acomodação, dos que tem dor eu quero a última gota, dos que tem ira eu quero o resultado, dos que sonham eu quero a decepção, dos que se decepcionam eu quero a primeira esperança, dos que tem promiscuidade eu quero a virgindade, dos que tem preguiça eu quero a ironia histórica, dos que tem mentira eu quero a verdade do sonho, dos que tem abandono eu quero o ódio, dos que tem maldizer eu quero a admiração, dos que tem inveja eu quero a agonia, dos que tem ódio eu quero as conquistas, dos que tem piedade eu quero a hipocrisia, dos que tem revolta eu quero os aplausos, dos que tem rebeldia eu quero a juventude, dos que tem trabalho eu quero a fé, dos que tem fé eu quero o fingimento, dos que tem frieza eu quero o motivo, dos que tem paixão quero a amizade, dos que tem saudade eu quero o retorno, dos que gozam eu quero a respiração.


Aos que tem cortes, vinagre. Aos que tem feridas, sal. Aos que tem silêncio, voz! Aos que tem voz, moderação. Aos que tem arrogância, humildade. Aos que tem humildade, arrogância. Aos que tem segredo, confissão. Aos que tem pretensão, deboche. Aos que tem quimeras, favela. Aos que tem utopias, menos filmes. Aos que tem curas, crônicas. Aos que tem realidade, literatura. Aos que tem fundamentalismo, mudez. Aos que tem verdade, sarcasmo. Aos que tem tesão, incentivo. Aos que tem braços, trabalho. Aos que tem esforço, louvor. Aos que tem suor, ajuda. Aos que tem luxúria, meu corpo. Aos que tem calor, cama. Aos que tem pose, fotografia. Aos que tem inquietação, papel e caneta. Aos que tem fazimentos, espera. Aos que tem raiz, profundidade. Aos que tem obra, apreciação. Aos que tem a dizer, ouvidos. Aos que tem a aparecer, chacota. Aos que tem frustração, continuidade. Aos que tem sucesso, filosofia.


Dos que tem, aos que tem, é ponte e vazo contínuo do rio de mim, que flui em osmose dos que tem aos que não tem, onde sou canal, de homem para homem, e sou elo desnecessária entre tudo que vejo e sinto entre tudo que falo e escrevo. Um cadáver adiado a serviço do canal humano e maravilhoso

FRATERNIDADE UNIVERSAL

Domingo, Dezembro 14, 2008





Um septuagenário vietnamita, doente, sem aposentadoria ou amparo previdenciário, trocava dezoito horas de trabalho numa fábrica da Nike, na Indochina, por algum dinheiro insuficiente. O ganho costurando bolas manualmente era enviado quase em sua totalidade para pagar o advogado parisiensi que tratava em apressar a deportação de sua filha, cuja estava sob custódia por entrar no espaço francês sem passaporte. O caso já se arrastava a dezoito meses e o advogado foi obrigado a adiar suas férias pela terceira vez. Enfim foi possível a tão sonhada viagem ao Brasil, a São Paulo; que fê-la sozinho, pois seu turismo era peculiar: nalgum tempo atrás entrou em contato com um funcionário de um grande hotel paulista, que garantio arrumar bom material para uso físico e para registro documental. O “bom material” eram crianças, de ambos os sexos, na faixa dos oito aos doze anos de idade, que eram aliciadas na sua maioria na CEAGESP e no Brás; eram vendidas em catálogos no exterior como um atrativo a mais para o passeio, sob a conivência de agências de viagem e da rede hoteleira em peso. O advogado, casado, pai, trinta e cinco anos, bonito e enriquecendo a passos largos, era um sujeito acima de qualquer suspeita, imagem rasgada quando apareceu com uma perfuração de bala na nuca, o tiro vazou o pescoço e atingiu a testa de um menino de nove anos, com quem estava mantendo relações sexuais no momento do assassinato, sob consentimento da mãe; que atirou no advogado no intuito de roubar seus pertences e assim aumentar o rendimento do dia. Correu mal! Seu filho era morto também. Dela, depois de presa, soube-se que era pernambucana e vivia em São Paulo, em Jardim Colônia, mãe solteira, trinta e oito anos e oito filhos, todos empregados no seu empreendimento sexual. Foi para São Paulo quando fecharam a Associação dos Moradores de Ribeirão, onde exercia a função de bailarina do Cavalo Marinho de Reisado. Era o único lugar onde ainda se praticava essa dança, que, depois de fechada a associação, foi extinta.



Fecharam-na porque aquela região da cana do açúcar sofreu um grande impacto com a automação, máquinas que vieram do EUA substituíram milhares de trabalhadores que foram obrigados a empreender de outro modo, o comércio local morreu, a agricultura sumiu, a cultura peculiar desapareceu. E os matutos da feira, que antes dançavam o reisado, vestígio da dança portuguesa de Porto Alegre, agora ouviam Mika e Robin Williams nos seus radinhos de pilha. Foi nesta feira que a pistola Glock foi comprada. Saiu da fria a luxuosa cidade Graz, na Áustria, para chegar às mãos de uma ex-dançarina numa feira pobre no interior de Pernambuco. A mulher demitida por uma máquina americana iria matar um advogado francês, que mantinha uma vitnamita presa em Paris para explorar um velhinho doente na Indochina e assim financiar suas taras em São Paulo.



Um economista simpático defende a privatização das riquezas minerais do seu país, um político nobre defende o endurecimento coercitivo das leis de imigração, um escritor acha que escrever em muitos idiomas é sinônimo de dizer alguma coisa, uma carioca acha que a miséria nacional é o Nordeste, um velho rico acha que carro blindado é medida contra violência, um veado acha que uma transar sem camisinha aumenta o sex appeal, um cobrador de ônibos não vê mal em não estudar, uma favelada não vê problema em ter mais um filho. E todos falam uma única e verdadeira língua nos quinze de globalização: o flagelo humano!

O CÃO DA PIEDADE

Sexta-feira, Dezembro 05, 2008


Passeia por um corredor largo e cumprido, amplo, sujo e lotado de um hospital um cão grande, sarnento, com pelos a cair ao chão, seu rosto deformado pela violência da rua, um olho cego, outro com secreção escorrendo, seus dentes eram quebrados e incompletos, sua respiração mais parecia um chiado agressivo, seu cheiro era insuportável. Andava cadenciadamente, com muita atenção a todos os desgraçados que se amontoavam no corredor, que sujavam de sangue e linfa as paredes encardidas, o cheiro de morte impregnava os narizes. Uns agonizavam em convulsões intermináveis, outros eram pálidos de tanto sangrar, outros gritavam de agonia, caixas toráxicas inflavam com corações a explodir, decepados viam seus membros por um fio, abortos se consumavam abertamente no corredor para a revista do cão, que passava interessado e indiferente, lívido e lento pela estética da miséria! Um suicídio não se consumou, uma criança atingida por uma bala perdida esperava a hora sinistra, um atropelado pedia para morrer, uma mulher esfaqueada pelo marido não tinha razões naturais para permanecer viva, mas ninguém morria!
O cão cheirava todas as feridas de perto com um certo contentamento e sem a estranheza ou repeulsa dos acompanhantes dos moribundos, todos sofriam acompanhados! O gemido coletivo de dores individuais criava uma ópera do inferno, um clamor de misericórdia e clemência ansiava pelo fim. E ao fim do corredor de súbito o gemido parou, ninguém mais uivava, sequer suspirava, ninguém implorava a morte, ninguém reclamava a dor. Apesar dos sangramentos, infartos, abortos, mutilações, convulsões e choques continuarem ninguém mais sentia dor e não lhes era permitido morrer ainda.


Um choro surgiu de um dos quartos que desembocavam no corredor dramático, logo eram dois, mais gemidos, mais gritos, mais súplicas de fim, muito mais intenso que os dos miseráveis do corredor, eram dores impulsionadas pela covardia de sentir dor. O cão volta a sua revista, abrindo porta por porta. Enquanto os do corredor não fazem um ruído. No primeiro quarto, limpo, bem decorado, com televisão de luxo, cama regulável e todo conforto necessário, estava uma senhora avarenta e mesquinha apegada ao acúmulo e morreu sem ar, sem um mililitro de oxigênio por clemência. No quarto seguinte o cão se depara com um homem demasiado frio e calculista, anti-sentimental, bonito, elegante, vestido conforme a boa regra social, prostrado numa cadeira, morrendo de uma dor profunda no cérebro, sem diagnóstico. Noutro uma mulher tinha muito medo e ia morrer em coerência com sua vida, tinha medo de tudo e viveu de observar e insinuar, sem ter se lançado, sem ter feito, sem ter errado nem acertado, e estava na pior das angústias: não se sentia mal, nem se sentia bem, mas sabia que ia morrer em muito breve, embora não tivesse nenhuma doença, nem diagnóstico, nem prognóstico; e morreu ali defronte ao cão, morreu daquilo que viveu: morreu de nada. Uma senhora que viveu para agradar a todos, que sempre queria ser as expectativas dos outros, sentia todas as dores possíveis, doia-lhe mortalmente todos os órgãos vitais, e enquanto um doia, outro cessava, de repente essa sofreu mais uma morte estúpida, morreu de tudo e de nada, como fora sua vida: uma crise de identidade sem diagnóstico concreto. Os do quarto eram numericamente menores que os do corredor mas sua agonia superava em volume e intensidade, e ao contrário dos outros, esses pediam para não morrer, com uma covardia indigna, imploravam por uma mão para os segurar no seu derradeiro momento, pediam aquilo que não construíram, sentiam a verdadeira necessidade daquilo que desprezaram por toda uma vida e sentiam sua dores horrendas, que parecia maior que o comum. Mas não era, mãos dadas aliviam mais dores que quilos de morfina. O Cão da Piedade saiu da última porta com último morto solitário, um homem soberbo, arrogante e prepotente, que suplicou pelo cão execrável como última companhia, implorou um carinho do sarnento, que apenas lhe virou às costas em coerência ao que o cadáver adiado havia plantado.


O Cão da Piedade avançou sobre a rua e só assim, sem a piedade, com a realidade cão, as pessoas conseguiram morrer para quem era de morrer, escapar para quem era de escapar e sofrer para quem era de sofrer!

UM TEXTO PORTUGUÊS

Quinta-feira, Novembro 27, 2008




__ É de vento a vaga de vontade...
__ ... mas é de tijoleira o adorno que a contem!
__ Tua mãe mandava estas bocas pela casa...
__ Pois era, e o tempo é muito lindo, só tenho pena de não a ver mais.
__ É vidinha, mulher, o tempo afecta a todos e havemos todos de morrer!
__ Mas enquanto que cá estamos deveríamos viver um bocadinho mais.
__ E então? Não estamos a viver?
__ Nós nos metemos cá dentro desta tasca 16 horas por dia, já não me recordo da cor do mar...
__ Tem que ser, ora pois como haveríamos ter criados os putos?
__ O rapaz perece-me a mim que éramos escusados na vossa criação, já a rapariga meteu-se em tudo e tudo que nós dissemos foi como pregar aos peixes e hoje dói-me mais as costas que há 20 anos, e mo dói sobremaneira o tempo que não resgatei...
__ Já estás tu, lamentações não pagam facturas, preocupa-te mais é com as continhas do fim do mês, que já fazes bem! Come e cala-te!
__ Não estás a perceber! Não é lamento, para trabalhar cá estou eu, tenho duas mãozinhas e não engoli um garfo, mas por aquilo que me apercebo de vida, acho que falta qualquer coisa.
__ Quem não mexe aos alhos a eles não cheira. Estás a armar-te em sofrida, mas és burra como uma porta em não ver que formaste teus filhos, tens um conforto acima da média e mais: esquece-te que viemos do tempo da fome, quantas vezes não almoçamos, no tempo de putos, uma cebola com sal e uma caneca de vinho americano? És tu e os miúdos: precisas de uma pica no cu para acordar vez por outra!
__ E achas mesmo que isto é alguma coisa? Achas mesmo que esta vida é alguma vida, achas que é isto que é felicidade?
__ Valha-me Nossa Senhora da Lapinha, tu já nem tens idade para essas asneiras, parece os brasileiros com essa idéia velha de felicidade; já tinhas idade para ter juizo, felicidade é o caralho que a foda, estás assim porque tens tudo que vida negou a muitos, agora isso parece-me excesso de tempo livre, porque se tivesses ocupadinha não tinhas tempo para isso. Também quero eu muita coisa e não tenho e nem por isso deixo de ver o valor do que posso. A vida é mesmo assim: a verdade, mulher, não é cruel, ela apenas não tem remédio...
__ Mas há mais marés que marinheiros...
__ Só não te esqueças que grande nau, grande tempestade! E que é na tormenta do mar que testa o marujo!
__ Apetece-me chorar por concordar contigo e ainda sentir-me ausente! Mas tem que ser! É melhor eu me apressar para fritar as elheiras e ir a minha vida, pois como bem lembraste “é de vento a vaga de vontade, mas é de tijoleira o adorno que a contem”... não temos vida para isso de ser feliz, “navegar é preciso, viver não é preciso”... é, tem que ser!
__ Ora, sem mais, cada um com sua sorte, é a puta da vida... tem que ser!

A FLOR NIILISTA DO DESERTO

Domingo, Novembro 16, 2008


Um lençol branco, desconforme, deitado sobre a coxa passa pelo sexo em direção às nádegas, era possível de certo ângulo ver a linha contínua do pé, que seguia pela a coxa desnuda, adornava o contorno do quadril largo e enxuto, subia levemente para barriga, se espremia nas costelas para a fartura do seio cheio, volumoso, duro e pesado. No momento estático era a beleza em conformidade, a harmonia entre o céu a terra. O queixo fino de contorno delicado, era a ponta de um rosto delgado e bochechas com covas rasas e elegantes quando ria, uma suave olheira se fazia chão para olhos pequenos e desenho semelhante ao de uma gata persa, sílios negros e longos com sobrancelhas finas nas pontas, de geometria egípcia, olhos castanhos como o deserto!
__ Você nu me é o ocidente, tão americano... branco, forte, musculoso, cara de mau, jeito seguro e carente como uma criança abandonada!
__ E você nua é um mistério sem solução, uma charada sem dica...
__ Sabe porquê? Eu sou árabe, minha verdade é milenar e tão profunda que é silenciosa, é interior e anterior às palavras.
__ Confesso que vocês figuram como um grande mistério...
__ Daí vem o repúdio, é sempre assim no peito humano, é sempre freudiano, é narcísico, é sempre esse movimento de rejeitar o que não conhece, procurar violentamente uma definição fácil e rápida. Neste momento fragmentado a mídia rápida taxa tudo, é rotulativa com tudo. Então árabe é terrorista e primitivo! Eu entendo esse fluxo, nós somos de cultura hermética, somos uma nação sem pátria, nos acostumamos a nos preservar sem ter um solo fixo, nossa cultura foi ainda mais intensificada por isso, é o que acontece contigo: quanto mais fora do Brasil, mas brasileiro você parece... a raiz brota quando nos encontramos fora do berço, foi de muita tristeza ter lido numa matéria sobre o cinema que se faz no Brasil, a jornalista taxava de “favela movie”, é isso que a indústria quer, é essa tática de domínio: nada que é seu presta, tudo que se faz é primitivo, secundário ou incompleto. Esses pseudos-inteligentes não percebem que um inimigo dividido é mais fácil de dominar que um coeso como um átomo. Nós entramos em todas as estruturas, em todos os continentes e convivemos desde dos princípios com todos os povos, mas somos árabes, sem alteração da essência, por isso que nos mantemos vivos, e se não fosse Carlos Martel teríamos o reino europeu de Granada. Sem valorização dos seus princípios nenhuma cultura ou instituição sobrevive, vejam a igreja católica, as instituições militares... o terrorismo está vivo em toda parte, uns soltam bombas e outros ameaçam com o fim do mundo, outros o fazem a promessa de um inferno eterno, outros usam o combate ao terrorismo como forma de terror. Mas isso tudo é apenas a política do medo, um rebanho acuado é mais fácil de manobrar, o medo gera renda e dispensa argumentos rebuscados. Sem contar as instituições oficiais de terrorismo, a imigração americana, o sistema carcerário francês, destruição das culturas locais por via da televisão, o sistema educacional brasileiro, entre tantos. O terror é um instrumento usado de longa data, desde o paleolítico que o terror move, coage e humilha o homem. Na verdade esse atual terrorismo é apenas uma face do niilismo negativo, a falta de raiz em tudo, a falta da verdade da sua existência própria, por isso a conversão em fundamentalismo cristão, político, nacionalista, cultural, islâmico, hedonístico; nessa era globalizada o homem nunca viveu uma realidade tão próxima e tão distante, o ser está em todos os lugares, fisicamente em todas as sociedades e inserido em nenhuma, nem tem a sua nem tem as dos outros, e nós árabes somos os mesmos árabes de 3 mil anos atrás, vivo na França, transo com um brasileiro, mas sou árabe em cultura e tradição, entramos em todas as estruturas e permanecemos os mesmos. É na verdade o eterno retorno do mesmo, todos os acontecimentos tendem a se repetir inúmeras vezes, por seguir tudo o fluxo mais primitivo dos instintos humanos, por isso a história universal se repete, por isso as histórias individuais se repetem inúmeras vezes, de cara nova, de cenário novo, mas de contexto similar, por isso a excelência, a vontade de potência é a única redenção humana, é a vontade de fazer neste momento o melhor, porque quando se repetir a vontade de potência o fará melhor, é o niilismo positivo. É Niezstche , meu lindo ocidental. Enquanto houver no seu país jornalistas que se declarem ao mesmo tempo patriotas e separatistas é a prova de que a tática americana triunfou: querer uma coisa e o antagonismo imediato dessa mesma coisa é a prova mais cabal de uma sociedade estilhaçada, uma sociedade em resto! Agora, meu brasileiro gostoso, pratiquemos o eterno retorno e me faça gozar para além da gozada anterior, exerça sua vontade de potência, seja ainda melhor para sua flor do deserto!
__ Diante de ti sou apenas uma pedaço de carne nova e de nervo ereto! Venha cá, minha flor!

UM TEXTO NORDESTINO

Terça-feira, Novembro 04, 2008



__ Boli nesse pitoco, mulé!
__ Oxe, dinovo, homi? Deixa de tua agonia, criatura!
__ Né agonia não, é o nengocio que num funciona direito, deve ser o calor demais, nem essa tal de televisão funciona direito... esse mormaço da bixiga lixa, agente fica afobado, um calor da febre do rato que sobe, vou beber uma aguinha cacimba pra ver se alivia...
__ É a Telma, né bichino?
__ Nem me fale, nega! Esse menina espivitada, cheia de crista, topetuda, foi simbora, de nariz arrebitado, diz que num volta mais! Hum, se a vida fosse do jeito que agente quer era fácil, se vontade fosse milagre o sertão era as zoropa, minha dor é saber que mermo que ela volte, eu já perdi minha menina, aquela menina que gostava daqui, que gostava de ser daqui morreu...
__ Deixe ela, homi. Não se preocupe não, mó de que aqui agente tem sempre o cantinho dela e feijão na panela nunca faltou nem Nossa Senhora da Conceição há de deixar faltar...
__ Vai vim é prenha de lá, isso sim! Agente criou ela muito afolozada, cheia de gosto, e quem nunca comeu quando come melaço lambuza os beiço!
__ Essa tal faculdade mexe com os meninos, né? Eles deviam ficar mais aqui, ser mais gente agente, mas desbunda por lado sul, e depois nada disso aqui presta, é uma ingrtidão que só Cristo pra ver!
__ É nada, mulé, isso é vontade de voar quem nem bem-te-vi, no meu tempo agente ia pra sumpaulo, trabaiava que nem uns miseravi e despois agente vortava lascado, doente, uns inté morria por lá, era um mói de coitados... hoje os coitados tem tudo anel no dedo, é tudo doutô... e vai tudo por sur maravilha, perde raiz, nega que saiu do sertão, vira uns bichos sem pai nem mãe, arremendano os sulista e virano motivo de piada, mas me diga mulé se o povo num tem razão de desconfiar de uma gente que nem gosta de onde veio? valor, minha veia, agente se dá, porque né ninguém que vai dar! Num tapia ninguém assim, fala de nós e deixa de ser nosso, mas também vira sulista nunca...
__ A Telma já mudou o jeito de assuntá com agente, é um tal de ti pra lá, um tal de ti pra cá, oxe quem já se viu isso? Na carcunda da gente pesa as escolha da vida, ela escolheu esse mundo longe porque tá achano que vai ter amparo, vai nada, fiu. Nesse mundo grande de Deus quem toma conta é o diabo, e ele não tem compaixão de gente fraca! Ele distrói, mói que nem milho pra canjica, depois joga o bagaço fora.... que Nossa Senhora Fátima me dê força nos braços pra amparar minha fia, que não sabe onde se meteu...
__ Quando é pirraia agente pega pelas oreias e bota num canto de castigo, inté a raiva passar, mas despois de grande, galalau agente faz o quê? Vai perder, do mesmo jeito que vi tantos, a juventude com vergonha de voltar e assumir seu papel nessa vida. Mas o que deixa aperriado mermo é ver essa menina se virando numa coisa diferente, ela já num é minha bezerrinha, ela agora é do sur, diz que tá feliz, hum! Pai sente felicidade de filho pela respiração. Ela é só mais uma coitada nessa máquina de moer gente, que nem a máquina do engenho vai moendo a cana... o bom da idade é a satisfação de num querer ser diferente daquilo que num vai mudar nunca.
__ Tome seu café e seu remédio de pressão, não se avexe, porque enquanto seus males são velhos os deles são novos e vamo parar de assuntar mó de que já vai passar o programa do Silvio Santos...
__ Oh, mulé que seria de mim sem tu, visse! Tu sempre fosse essa rocha desde de menina, sempre fosse meu salzinho do sertão, a quem essa menina puxou meu Padim Ciço?

DIÁRIO DE UM NEURÓTICO

Quinta-feira, Outubro 30, 2008


Osvaldo era a promessa do futuro, era o Brasil em forma de pessoa:


“Promessa do futuro, sei, tou sabendo! Escrever diário é coisa de veado, como não sou veado vivo um dilema, mas dizem que alivia. E quem disse que eu quero alívio? Eu quero é pagar o aluguel que tá na hora da morte, e minha luta nos últimos cinco anos tem sido pagar a porra do aluguel; acabaram-se todas questões intelectuais, sucumbidas por essa obrigação pecuniária, que eu não consigo cumprir na data. Agora, parceiro, se você não consegue morar imagine ser um vencedor, aliás não se diz vencedor mais, se diz winner. Bonito demais, e a dívida continua aberta, mas não se queixe, winner não se queixa, vista-se bem, winner veste-se bem, o winner é relaxado, tranquilo, tem a palavra certa no momento exato, é fã Nova Iorque, e vai fazer MBA, mesmo que seja de mentira. Tá foda, eu não consigo nem pagar o aluguel e vou fazer MBA em NY. Triste foi não ter seguido o Dr Layr Ribeiro; Stendahl, Gogol, Gorki, Camus, Fiódor e olha no que deu? Enfim, sem ser winner, meu amigo, a coisa fica preta!


A luta fica muito pior quando chega a fatura do cartão de crédito e você encontra uma amiga que fez serviço social, e milita na causa do movimento anti-manicomial e na difusão dos problemas africanos no Brasil. Companheiro depois de dez minutos de papo só dá vontade sentar a porrada, enfiar duas mãozadas na cara dela e ir embora! Dez anos atrás ela era uma delícia, poderia militar até na causa das baratas brancas, mas agora com gorduras caindo pra tudo quanto é lado vem me falar de África como se fosse o quintal da minha casa, tenha santa paciência pneuzinho, acorde para vida porque seu prazo de consumo tá passando! Eu me preocupando com Angola enquanto meu aluguel não está pago? Isso autismo, isso é bem brasileiro. Pior vai ser convencer a minha namorada, ou quase esposa, ou futura quase ex-namorada, que não vamos sair pelo quarto fim de semana seguido; no começo era “tudo bem, sairemos no outro”, “entendo tua luta”, agora preciso dizer e correr, porque a afetação moral não tem preço! Pensem comigo: ser winner, me preocupar com os doidinhos, saber dos problemas da África, levar a madame pra passear no shopping, resolver o cartão de crédito e ainda pagar o aluguel em dia, dá pra ser feliz? Não dá, mas também a felicidade é uma idéia velha, é démodé, né?! Isso não é paz, o Brasil não é um país em paz, está em guerra disfarçada e aberta entre nós, por exemplo numa guerra real vem uma bomba e derruba meu apartamento, logo vou morar na rua, mas tenho a desculpa: a bomba derrubou e eu sou o coitadinho da próxima estação, viro desabrigado mas coitado; mas se eu não pago, amigo, vou pra rua, viro desabrigado, incompetente, vagabundo e foi-se o winner pelo cano. Miséria atrai miséria, sem winner nem para vendedor de sapato eu consigo. O jogo é tenso! Mas já sei o que vou fazer, da próxima vez vou sentar o cacete na assistente social do inferno, vou dizer que minha causa sou eu, que a África é uma fotografia, que winner é a puta que pariu, se minha namorada, amante ou porra que for quiser boa vida vou mandar abrir as pernas na Espanha, que dá grana fácil e rápido e meu chefe vai tomar um pau, toda vez que ele lembrar de mim vai cair, e tem mais: agora que tou encaralhado decreto moratória, não tem aluguel pra ninguém, o primeiro a falar nisso vai pra lona!


Ahh se eu não tivesse 1,60 de altura e não pesasse 65kg; tudo seria bem diferente, ainda dizem que tamanho não é documento! Mas África e aluguel atrasado não combinam nem fudendo, meu querido diário!

AO MEU AMIGO, QUE NÃO FOI, YVES

Segunda-feira, Outubro 27, 2008



Yves, venta muito forte na rue Grenalle, seu atelier fica a cem metros deste café, é possível ver o movimento constante de gente, o 6 ème Arr ainda é muito elegante e decadente, embora nunca me tenhas dito, sei que era isso que tu gostavas aqui. Vim em nome da nossa amizade que nunca existiu, neste fim de tarde, que não existe também. Aliás o amanhecer e o anoitecer são horas malditas, uma situação indefinida que mete medo, como é o começo da primavera e do outono, tempos indefinidos que causam da angústia da incerteza, da imprecisão; mas é pelo outono que venho pedir um corte, que não seja demasiado curto, nem longamente folgado, que apenas aqueça o frio da incerteza e realce a fugacidade dos meus músculos, confio nas suas saint-mains para alimentar meu desejo de ser amado!


Saint querido, nesse curto trajeto constatei que não vou para o céu, ora porque ele não existe como morada, ora porque não sou merecedor de divindade, a não ser que Deus goste de anjos debochados! Digo isso porque encontrei o Meiguices no caminho, e ele me perguntou com cara de devoto: tu não achas que ainda vou a tempo de acordar? No auge dos seus setenta anos, o que eu iria dizer, Yves? Disse o que meu humor mais corrosivo conseguiu: claro, tu téns todo tempo a teu favor! Não bastou de provação por uma dia, também encontrei o Joel, o português de dezoito anos que vive aqui com seus três filhos, é aquele menino que noutra carta lho falei sobre nunca ter encontrado ser tão pequeno em forma e em sonho, é tão tacanho que se um dia seu sonho de ter um apartamento alugado dentro da île de cite concretizar-se ele vai se matar por vazio existencial. Também me perguntou se poderia conseguir, o que dizer meu Saint? Disse que sim, que ele tinha todo o tempo a seu favor. E francamente, vejo-o tão morto quanto o meiguices. Não é misantropia, é falta de sentir calor, entende mestre, é falta de sentir a paixão que arde sem uma razão precisa, que existe por existir, mas faz propulsão, que é motriz, que é arranque. Eles me passam a imagem da transição da noite para o dia, do dia para a noite, do inverno para primavera, do verão para o outono; a imagem gélida de quem não tem paixão! Então esse cinismo deve ser castigado com labaredas, quero estar elegante no inferno dos infames.


Laurent, não esqueça que prefiro os cortes sob medida, mesmo que custe um pouco mais, mas prefiro a precisão, o afinamento mais delicado tudo, diminua meio centímetro no busto, quero mostrar meu peito de forma atrativa, afinal tudo é moda e banal nesse mundo, deixe-me viver a vontade de ser um cadáver sensual. Que causa a vontade mais primitiva de necrofilia ou a pena sexual de quem diz “tinha um corpo tão bom e é morto”. Prefiro couro também, dos grossos, mas que evitem me mostrar mais gordo. Se é para ser o que o mundo quer, coloquemos os dedos no nariz e sejamos belos nas fotos. Mas faça de mim seu anjo decadente, seu modelo maior em descartabilidade, me vista na moda que dure nada, na veste que seja exótica e acitável no padrão normal, mas que nunca seja como o outono que inflama as gargantas e não dá febre, que não seja como o anoitecer, que não seja como uma mulher que transa e não goza. Que seja o que for, meu velho Yves Saint Laurent, mas que seja apaixonante!

ACIMETRIA MÉTRICA

Sexta-feira, Outubro 24, 2008



A asfixia é por aquilo que não se contem, por aquilo que abunda e derrama sem controle, é pela incontinência métrica de tudo! Falta o ar pelo sapato carregado de distância, na palavra que brota da mudez, no coração de tantas vidas distintas e unidas. É sufocado de respirar realidade, é contido de ser aberto e confesso de não revelar. É próximo de tanto andar e não se afastar de si.


Neste mar sem irmão, no meio do limbo de miseráveis roendo misérias miudinhas resta o desprezo como único sentimento e o agarramento ao extraordinário que não acontece. Ser menor que eles e sentir superioridade de visão, falta ar! É sufocante não poder revelar sua opinião mais clara e sua crítica mais azeda a toda orda que o circunda, é sufocante serem tantos e não formarem um sequer, por caridade. Um mundo cabe num crânio, uma estrada cabe nos pés, toda rotação cabe nas mãos, mas nenhuma palavra define um arrependimento! E não apareçam heróis que não se tenha arrependido do algo feito, feliz dos poucos que conseguem se arrepender de poucas coisas. Mas acima de tudo há a cabeça erguida, o chapéu panamá em prumo e os planos em segredos, aos amigos o amor e a proteção, aos inimigos não há regras éticas, derrotar é a meta! Arre a tudo, este lodo não merece compaixão, apenas reação e um desprezo de um ditador asfixiado!

BAIÃO PREMIADO EM 4º LUGAR NO XXVI Concurso Internacional Literário

Quinta-feira, Outubro 23, 2008

Olá Clayton Eduardo França Silva,

Parabéns! Você se classificou em 4º lugar no XXVI Concurso Internacional Literário, na categoria de Crônica, com seus textos: "O taberneiro niilista / Amor de subúrbio" (de 4 páginas).

Devido sua ótima classificação, segue nossa proposta de adesão ao livro "Travessias", que terá o processo de adesão finalizado durante o mês de Novembro. Para conhecer os demais autores classificados no XXVI Concurso Internacional Literário, visite: http://www.giraldo.org/26_classif.htm

Caso tenha interesse, por favor entre em contato para realizar sua adesão ao projeto do livro.

Atenciosamente, Luciana Giraldo.

Este prêmio é nosso, esse blog é para quem o lê, por isso qualquer prêmeio ou elogio é um denguinho gostoso a todos que tanto carinho despreende aqui! Um brinde a nós, porque nós merecemos! Agora o Baião vai virar livro, é um prazer que um dia vou conseguir descrever com exatidão!

DIÁLOGOS - EDUCAÇÃO PELA PEDRA

Terça-feira, Outubro 07, 2008





O copo de Cutty Sark sem gelo era levado à boca com parcimônia, com a pausa de quem faz um método. A toalha branca de renda austríaca cobria a mesa de mármore raro, pelo salão alguns casais elegantíssimos discorriam em vários idiomas, diversas etnias, mas todos belos e aristocráticos ao som de algum jazz; o restaurante no coração de Paris (rue Saint Dinis – Chatelet) era o paraíso capital. Um garçom educadíssimo trouxe outra dose de whisky 25 anos acompanhada de polvo ao molho verde para petisco, quando o prato tocou na mesa sua cabeça deu um estalo e o levou a Recife, 20 anos atrás:



“Eu quebrei seu prato para você aprender que pobre não pode dividir nada, se dividiu sua comida, agora vai ficar sem comer, para aprender que quem dá aquilo que é seu fica sem. Abra os olhos, seu imbecil, pobre pode ser tudo menos solidário!” - um turbilhão foi desencadeado por uma série de cenas agressivas, diálogos cortantes, como num pesadelo real.



“Meu menino, a honestidade não é um valor nato, como dizem na igreja... não, isso é coisa de padre que está com a barriga cheia... honestidade, filho, é um direito adquirido. Parece duro, mas é verdade; a gente chega a um ponto em que se pode ser ético e honesto, mas não pense que é questão de querer, é poder. Um dia você vai entender e vai exercer!”



“Ninguém respeita intelectual liso! Ganhe dinheiro depois fale, e olhe para esses arruaceiros vermelhos de chinelo no pé, barba por fazer e andando de ônibus, é isso que você deseja? É essa sua meta? Se for saia daqui agora, porque eu lhe tirei por grande, eu via em você um papel além... não queira voar com águias andando com galinhas...”



“ O casamento é um contrato social antes de tudo. É meio de vida, aproveite! Na maioria dos casos o amor só atrapalha!”



“Eu levo a vida que posso, está muito longe de ser o queria e longe ainda mais daquilo lhe fiz acreditar, você me descobriu, é isso mesmo: não passo de um alcoólico, desempregado, sem dinheiro e com estas centenas de livros, às vezes vendo uns pra comer, vai servindo pra alguma coisa; eu sinto, eu não servi para vida prática, eu não soube lidar com o mundo, me perdi em teoria, em sonhos e o tempo passou, eu fiquei... todo mundo foi, seguiu, porque todo mundo era um pouco hipócrita. Eu era o único que acreditava de verdade, aprendi com isso uma lição que veio tarde demais: acreditar demasiado é burrice, a hipocrisia é fundamental!”



“ Se você me questionar mais uma vez eu lhe dou tiro na cara na hora, porque é de planejar quem está no planjeamento, é de cumprir quem está na execução, seu papel é cumprir o que eu mando, o meu é lhe dar um tiro se me questionar, missão dada, é missão cumprida, tenente!”



“Seja esperto e pense rápido, desenvolva um raciocínio de rapina, pense como um carcará, espere como uma cobra, você não vai poder escolher muita coisa nesta vida, por isso esteja pronto para o bote na hora certa, sempre pronto. Você só vai sair desta favela, filho, se for rápido e esperto, para isso aprenda a se fazer de otário muitas vezes e não esqueça que pobre orgulhoso é um burro teimoso.”



“ Não se preocupe com os nomes que você vai levar, serão muitos e feios, quem quer ir além tem que carregar a revolta da humanidade preguiçosa que não anda nem deixa andar, por isso tudo que você fizer será feio, condenável e sujeito a crítica violenta; erga a cabeça, porque você é maior, porque seu propósito é superior e porque a humanidade não pode ser levada em consideração. Se você conseguir o afeto verdadeiro de sua mulher e de seus filhos, acredite, já terá a parcela maior de sinceridade da vida. Siga sem olhar para trás, porque os que lhe criticaram serão os aduladores de amanhã.”



O homem tomou o último gole, pegou seu chapéu Panamá de inverno, com corte Zimmerman, ajeitou seu seu casaco de couro de antílope, deitou algum dinheiro farto sobre a mesa e saiu. Tomou uma rajada de vento gelado na face e lembrou sem saudade do ardor que faz em Recife.

TRATA-SE DE LUXO, AMÉM!

Segunda-feira, Setembro 29, 2008



Sentar nesta mesa e partilhar esta garrafa contigo trata-se de coisas inacabadas, de visões daquilo que não se enxerga de perto, trata-se de perguntas invariavelmente sem respostas. Trata-se de qualidade: de retórica, de eloquência, de oratória; trata-se de excelência de vida, de melhoramento da preguiça bíblica, do sadismo de Deus, do desamor, do estiramento muscular e de outras dores. Trata-se de vaguear vagabundo pelos compromissos da vida, de ser mais vadio ainda diante dos homens compromissados com o tempo que passa, trata-se de não passar e pairar entre o passado, presente e futuro, com o sentido de que no fundo tudo é uma grande palhaçada armada para entreter o tempo enquanto a morte não chega. Trata-se de estar cansado de ser quem não é, de querer o que não pode, de saber-se ilimitado e preguiçoso. Trata-se de tanta coisa, mas de uma não se abre mão: paetês; do requinte fresco, da etiqueta esnobe, da ostentação glamurosa, dos ornamentos aristocráticos só para ter algum luxo por Deus; porque todos precisam, amém!
Trata-se em não acreditar em mais nada para além do que se pensa, do que se sonha, do que se contém. Trata-se de calamidade pública irrefletida na multidão, mas viva no sentido individual de cada cabeça de gado. Trata-se de exorcizar o sentimento de culpa de ser pobre e brindar com taças de cristais, a beber Dom Pérignon e iguarias raras. Entre queijo roquefort e trufas negras, sem ressentimentos, baby! Beber contigo trata-se de ter punho na boca e sorriso na mão, trata-se de quebrar o espelho, erguer meu copo e ver que a parceira era apenas o reflexo do desejo mais íntimo. Quebra-se o espelho que não se vê, descarta a comida que a fome suplica, quebra-se os copos e não se bebe mais, mas por Deus: entre o tratar e não tratar, que sejam luxuosos os dias de agonia!

CAUBY PEIXOTO E JOÃO GILBERTO SÃO GÊMEOS

Sábado, Setembro 27, 2008



Artigo escrito para o Blogueiro Repórter e está disponível também neste link azul. Agora este sertanejo vai apresentar um artigo semansl sobre música até alguém perder a paciência comigo.
Cintilam no céu do Brasil, há quase 60 anos, duas estrelas gêmeas que brilham de costas uma para outra, mas de beleza e entedimento complementares: explode Cauby Peixoto tudo aquilo que João Gilberto sussura, e ao longo destas quase seis décadas, foram dizendo a mesma coisa, numa relação de reciprocidade e desnudando todo o sentimento brasileiro.

São gêmeos de nascimentos distintos, Cauby a 10 de fevereiro, João de 10 de junho de 1931, são quatro meses de diferença, são quatro os anos que separam suas estréias nos palcos nacionais. Cauby estreia em 1946 como “crooner” da Rádio Tupi, enquanto João conseguia certo destaque no grupo Garotos da Lua, expulso depois por indisciplina. As coincidências não param por aí, em 1959 João lança o álbum Chega de Saudade, com muito destaque inicial para Rosa Morena de Dorival Caymmi, oitava faixa. A classe média não gostou daquela batida diferente, do samba compassado, disseram que era coisa de americano; o disco levou alguns anos para ser reconhecido pela maioria. Em 1959 Cauby lança nos EUA, com muito sucesso de crítica e público, o álbum Maracangalha, que recebeu o título de I Go, o mesmo Brasil que se desconheceu em Rosa Morena no compasso de Bossa Nova e decretou americanização, se identificou ferrenhamente com a mesma Rosa Morena cantada em Inglês e Cauby foi recebido com honras de defensor da cultura nacional quando retornou ao Brasil para lançar o primeiro rock cantado em português: Rock´n´roll em Copacabana



O Brasil se achou por ali. Depois que as revistas Time e Life deram-lhe o nome de Elvis Presley brasileiro, Ron Coby, como era conhecido nos EUA, virou símbolo nacional; montou a boate Drink no Rio de Janeiro, a qual virou referência entre uma classe média abastada e branca que gostava de fazer música, eram os meninos da Bossa Nova que frequentavam a renomada Boate, reduto intelectual e artístico do Rio na altura. João estava lá todas as semanas e foi lá que conheceu Marly Tavares, musa da Bossa, e Carlos Lyra, isso ainda em 59, e depois de lançado o Chega de Saudade.

Seguiram caminhos diferentes, mas com a pretensão brasileira, gravaram em idiomas diferentes, João gravou em quatro, Cauby em nove, inclusive russo. Mas foi agradando aos americanos que eles conseguiram o reconhecimento brasileiro. Dois modos distintos e complementares de interpretar que beberam nas mesmas fontes, Caymmi, Ari Barroso, Ataulfo Alves, Zé da Zilda (Aos Pés da Santa Cruz, que ambos gravaram nos seus estilos), Luiz Peixoto e Tom Jobim. E pasmem, Cauby é o segundo maior intérprete de Tom em quantidade de gravações, perdendo apenas para João. Dois titãs que encarnam hoje o Brasil nas suas várias faces. Gravando os mesmo compositores João virou “chic”, Cauby virou “brega”. João faz espetáculos caríssimos, raros e ainda dá chiliques, Cauby canta toda segunda-feira no bar Brahma, no coração da boemia paulistana: Av Ipiranga com São João, 20 reais a entrada.


Duas obras colossais que dizem tudo da sociedade branca, pálida e inculta do Brasil, quando João bate o violão de longe, a voz de Cauby treme e de um modo distante riem dessa massificação e segregação social dos gostos. Mas não há como negar que o brasileiro é ao mesmo tempo o dândi de Cauby e o cool de João; nesse requebrado, onde o cafona é apenas uma questão de posse, essas figuras são de um lado um Brasil que adora neve, que tem o sonho de não mais falar português e tem saudade dos cabarets parisienses que nunca houve, de outro o sentimento exibicionista, espalhafatoso, com vocação ao estrelato banal, com uma profundidade indefinida cheia de plumas e paetês de quem se acha o tal. O bom brasileiro, o genuíno, é o que se expressa de João e ama de Cauby. Peixoto é o ID e Gilberto é o alter-ego tupiniquim, suplementares e indissociáveis no entendimento do Brasil.

O ORGULHO

Terça-feira, Setembro 23, 2008



É uma bailarina assincopada que te conduz a uma dança desvairada a meio centímetro do chão e sempre subindo! Uma bailarina de nome masculino para mostrar seu caráter dúbio e duvidoso, mas é explosiva, é rápida, é pop. Aparece e não deixa respirar, pega pela mão e baila, primeiro pela admiração, depois pela devoção e quanto mais olham, mais te enche de ti, e dança em rodopios incessáveis, cada vez mais tonto, cada vez mais ébrio, cada vez mais enjoado. Veste-te das roupas mais belas, te investe das palavras mais garbosas e incha tua boca na hora pronunciar.


Para cima, numa ascensão meteórica e um argumento vivo de que todos estão alucinados e catatônico com tua dança. E tu não olharás para baixo porque olhar seria conceder à mortalidade o ar de sua magnificência, nem pensar nisso. Sobe de cabeça erguida e crente do seu sucesso. E começa um ensaiar uma dança ao teu redor; a quilómetros de altura ela começa a erguer paredes góticas com ar de barroco, altas e intocáveis, com arcos intimidadores e penduricários tão frescos que enjoam só de olhar. A bailarina te fala ao ouvido coisas tão bonitas a teu respeito, te faz tão bem que tu te perguntas como pudeste viver tanto tempo sem te enxergar dessa forma absoluta. Quando a catedral inalcansável está erguida sobre o ar, sobram ornamentos e falta chão, de tudo abunda naquilo que te cerca, teus olhos reluzem como a um possuído, mas ela não te convida para sentar na catedral de ti.

Não estranhas nem vais querer brigar com quem te faz tanto bem e lembras do quão seria maravilhoso ter um coitado para ostentar tamanha beleza. Olhas para o chão, mas de tão alto já não vês nada. Não tem problema a bailarina ainda baila, um pouco mais lenta e sem paixão, mas persiste por algum motivo estranho. Pedi-te algumas coisas irrelevantes, e por que não ceder? Mudas de nome, mudas de referências de amor, mudas de norte moral, mudas de voz, mudas de feituras, enfim te tornas melhor no teu plano de evolução próprio. E o que é tudo isso diante de ti? Nada! Há tempos que não vês ninguém, há tempo que não ouves ninguém, mas ela está lá, imperialista e presente bastando por tudo e por todos.


Até o dia em que mataste tua infância, no dia em que negaste a tua origem e que cuspiste na cartilha do teu pai. Ela soltou tua mão, olhou-te de frente perguntou quem és tu?
__ Diga-me tu, severa musa!
__ Musa? Quem disse que eu sou do gênero feminino?
__ Mas e a bailarina?
__ Não sabes quem eu sou e já não sabes quem tu és, agora é minha hora de partir!

Caíste sem para-quedas das alturas que te punhas, com tua catedral por sobre a cebeça, investido de tudo que te forjou. Abres os olhos e és vivo, olhas ao redor e estás exatamente no mesmo local de onde ela segurou tua mão pela primeira vez, e aí vês que não te moveste um centímetro, nem para cima, nem para os lados; para baixo talvez, porque enquanto te amavas isolado no claustro de ti mesmo o tempo passou!

CARTA À ASPIRANTE AO PROBLEMA

Sexta-feira, Setembro 19, 2008



Que não se engane: não suporto ser o mesmo todos os dias, que acho a serenidade um tédio e quem quiser me amar que se acostume à tempestades, tem que ser marinheira de mar revolto, porque eu não aceito menos que uma mulher que saiba navegar. É de mim ser incoerente apenas pela agonia que causo nos normalistas, é de mim recomeçar o tempo todo, seduzir outra vez, erguer tudo novamente pelo prazer da luta, não que não dê o valor ao que ganho, mas o que ganhei já é passado, é de mim gostar mais do querer chegar do que o chegar em si. É de mim ser poligâmico e exigir fidelidade, é de mim ser fiel tão-somente ao meu prazer, é de mim ser leal como um soldado. É de mim não ter vergonha ser egoísta e exigir altruísmo. É de mim chorar só e não saber perder. É de mim ser um intelectual no planejamente e um militar na execução, é de mim suportar as amarguras mais escarpadas de sorriso no rosto e ainda é de mim recusar os troféus das vitórias por achar o orgasmo um estraga prazer!


Que não se engane achando meu amor é estável, porque estável é um cadáver que desprezo, que não me julgue por imaturo, confundindo, na sua pobre noção de moral sentimental, comodismo com maturidade. É de mim ser inquieto e precisar de calmaria, é de mim abarcar o mundo como um filho, é de mim proteger quem amo como um guerreiro, é de mim não dar paz a quem não gosto, é de mim ser vingativo e não contar com piedade. É de mim ser profundo quando silencio, é de mim admirar impetuosidade e orgerizar petulâncias, é de mim praticar a audácia e reprimir a insurreição. É de mim fazer da minha imagem minha prostituta mais volúvel, é de mim não deixar ninguém chegar em mim. É de mim mentir com tuas verdades, é de mim ser tangente à tudo, pela irresponsabilidade de não assumir nada.


Que não se engane a olhar meu corpo e meu rosto bonito, porque sou feio por ser humano. Que não acredite nas palavras bem elaboradas desta erudição vagabunda, porque dentro impera apenas os pés decalços de menino megrelo das favelas de recife. Que não me peça muitas explicações sobre coisas óbvias, que não me tire por sabedor ou culto para não me irritar porque é de mim ser simples, curto e grosso. É de mim ser homem no total sentimento maldito de carregar um pênis, é de mim gostar de ser homem pelas provas duras do fardo masculino, é de mim gostar de bater, de apanhar, de pegar peso, de falar grosso e gostar de coisas de homem, por conseguinte natural é de mim gostar de quadris largos de parideiras, é de mim gostar de mulher manhosa e safada. É de mim ser generoso e carinhoso com quem amo, é de mim adotar como filhas as mulheres que amo e amei um dia, é de mim nem esquecer, nem ser esquecido. É de mim respeitar o tempo, é de mim não envelhecer no sentido vulgar, é de mim morrer um pouco a cada 6 de janeiro. É de mim gargalhar alto e ser escandaloso, é de mim não pronunciar uma palavra por um dia inteiro. É de mim derramar minha fúria contra quem tenta me mudar. É de mim ser devoto dos, e menor que, meus filhos! E você aspirante a esta merda complexa só peço que não mexa nos meus livros de Pessoa, nos meus chapéus Panamá nem me pergunte porque estou descalços às segundas-feiras. Que não se engane porque é de mim ser assim!

A USINA E O HOMEM

Terça-feira, Setembro 16, 2008



De um lado uma usina de Pernambuco, de outro o homem de Pernambuco na usina da temporalidade. Lado a lado eles começam uma medição de força contra o tempo.
A usina apita no amanhecer do dia e os trabalhadores ligam as máquinas, o processo se inicia, moagem de cana bruta, cortada por mãos calejadas e sofridas. Extrai o açúcar!
O homem dá um tiro no lirismo, corta toda gordura prolixa de sua vida. Fica mais leve e descarta os dramas como a um copo plástico. Extrai o açúcar!
A usina draga todo o tempo, no engenho tritura-se as almas mortas e as esperanças banais, o verde de antes é o seco da queimada depois da colheita. Extrai o mel!
O homem corre de coração aberto e uma sequência de punhaladas arrancam-lhe lascas e esculpem-no em pedra mármore apenas o músculo que lhe bombeia o sangue; os comércios, os amores, os desamores, as frustrações, as vitória pela metade, as derrotas incompletas, a piedade que não ajuda e ajuda por piedade criam apenas a carcaça do homem sem alma. Extrai o mel!
A usina mantem a marcha marcial do tempo e a máquina do sistema patriarcal decepa cabeças de gerações inteiras, na certeza de que cresce junto com a cana mais cabeças para serem decepadas na sequência generosa de hereditariedade da miséria. Extrai o futuro!
O homem toma tudo que pode, leva todos os emblemas que não tinha planejado carregar, faz o que é necessário, sente os joelhos mas não os dobra, segue erecto uma marcha de dores recebidas e doadas, como única compaixão possível. Extrai o futuro!
A usina subdivide a cana e faz o melaço, reduz a produção, dispensa os sazonais, apodrece cana na terra, retém o açúcar, usa, como pedra de arremesso contra o governo, os braços parados. Extrai o valor!
O homem desconhece toda virtude daqueles que o cercam, não há palavra que defina positivamente seu irmão, todos vis e imprestáveis na lida diária, profissionais incompetente, amantes insuficientes, amigos incoerente. Extrai o valor!
A usina enferruja, os parafusos estão frouxos, o latão envergou de forma definitiva e o tombo é um questão tempo, sua virulência de antes já não assusta as almas perdidas, mas para além da usina que rui há outras usinas que começam a todo vapor, com todo o vigor das máquinas novas. Extrai a cachaça!
O homem oscila e o reino treme, o guerreiro titubeia e a fé é abalada, mantém a cadência com dignidade, embora todos saibam que o futuro é esmorecimento; e por seleção natural outros homens, com a explosão da juventude, já o lançam às feras em patadas lentas, graduais, sucessivas e crescentes. Mas antes de se retirar do palco ele vai até à usina, toma seu único e verdadeiro troféu na vida: a cachaça, último substrato daquela que o desafiou. Saboreia-a como supremo vencedor, que ali é o açúcar da inocência, o mel da juventude, o valor da luta e certeza do futuro que o espera. Tem a honra de por sobre os escombros do vencido seu chapéu Panamá. Deixa para trás as marcas das suas personalidades e vai ao encontro do vencedor por excelência de tudo e de todos: o tempo!

A VOZ QUE ATRAVESSA O CORREDOR

Quarta-feira, Setembro 10, 2008


A voz que atravessa o corredor não tem rosto, não tem definição estética, nem identificação visual e é explícita, íntima, pessoal. A voz que atravessa o corredor é firme como a autoridade do conhecimento materno, como o firmamento de tudo, como o tronco de uma existência, sem nunca ter mostrado a face, a voz que define, amplia, sugere, roda, rodopia, empolga, dita, regozija e ampara não tem cara! A voz joga, por sobre a meia parede da casa velha de Recife, as palavras que os ouvidos há muito imploravam, que joga por sobre a meia parede os desejos que ninguém teria rosto de mostrar, que joga puerilmente os delírios insanos necessários à sanidade, que rasga tudo escrito e faz o seu evangelho pela meiguice da voz que atravessa o corredor.


Que voz, que força, que anjo feminino, devasso, que rodopia um mundo, que mata a letargia, que insurreta a liturgia, vira a ortodoxia, cospe nos protocolos, faz da ética massa de medelar, e modela como argila, só com a voz que atravessa o corredor. Nessa cantiga do bandido as palavras são talhadas e fundidas num perigoso fio de navalha, que baila agressivamente nas mãos de uma cigana desvairada e apaixonante, em que o peito másculo rasga a camisa e se expõe contraindo as fibras musculares, desejoso por um corte lento e profundo, para escorrer o sangue do peito em ternura, pela voz que atravessa o corredor.


Agora a voz que atravessa o corredor já tem gosto e cor: de sangue e rubro; as palavras já entram em contexto e a ferida é contemplada com um altar sagrado, e o rosto dessa voz já é secundário. Essa hemorragia não pode cessar e esta voz precisa de corpo luxurioso, contudo cada vez mais precisa cada vez menos de um rosto. A porta está aberta e a voz que atravessa o corredor passa pela fresta e diz: vem. O peito sangrando vai ao encontro, mas olhos fechados, para apenas ter pele de olhar, cheiro de ver e sexo de enxergar. E agora a voz que atravessa o corredor está ao pé do ouvido e é lambuzada do sangue do peito, e ensopa o ouvido, com línguas, sussurros, saliva e sangue de linfa. E é assim, de hemorragia de vida, sangrando de viver-te que o boxeador quer tombar, sem rede, sem amparo. Tendo como único sentido vital o corte que lateja, como única fortuna a navalha afiada, como única metafísica a cigana sem rosto, como único sentimento a voz que atravessa o corredor, que não é mais que alegria!

MEU NEGO, MINHA NEGA

Segunda-feira, Setembro 08, 2008



__ Falta muito, nego?

__ Acho que só preciso fazer mais uma cova, as batatas já estão plantadas, nega!

__ É que eu tou tão cansada, meu nego!

__ Cansada? Mas e agora você anda cansando da vida de sempre, nega?

__ As costas já doem muito, eu preciso de descanso, porque a vida cansa, nego!

__ Mas num fale assim... agente só precisa escavar a cova das macaxeiras, nega.

__ Acho que num vou aguentar, nego!

__ Mas é molinho, nega... se anime, venha, lute mais um pouco... você aguenta mexer nessa terra mole...

__ Você fala de um jeito que dá vontade de tentar, mas não é a terra que não vou aguentar, nego!

__ Neguinha, faz isso não! Deixe, eu vou só e depois passo um café bem forte.

__ Forte é você, nego!

__ Sou forte não, nega... eu sigo, como segue essas batatas-doce, essas mandiocas... eu sigo...

__ Eu quero mais não, nego. Sessenta anos, dá pra saber até o gosto dessa terra!

__ Eu boto o sítio à venda, e a gente compra uma casinha na cidade... mas antes me deixe acabar, nega!

__ Acabar? Quem dera, meu nego!
__ Põe as mãos na terra, neguinha, sente como tá úmida, essa safra vai ser tão boa...
__ A terra tá de consumir o que não presta e transformar em adubo, neguinho! Você tem razão... que vontade
__ Vontade de café, nega?
__ Não, nego! Vontade de que a terra me coma logo... vontade de morrer...
O velho deu uma gargalhada aberta, se apoiando no cabo da enxada enquanto o suor descia lavando o corpo.
__ Você quer morrer, neguinha... que saudade desse tempo, minha nega... eu já morri faz tempo...
__ E hoje só segue, né nego?
__ Só sigo, nega!
__ Então vamos seguir... venha tomar seu café...
__ Vamos tomar o café e seguir, porque isso de viver é muito complicado, parece coisa de novela...
__ É verdade, meu nego... é verdade!

COVARDE

Domingo, Agosto 31, 2008

O cara estava puto e seco como a bateria dos Rolling Stones, tronco nu, um copo de whisky pela metade, matando a goles largos e andando de uma lado para o outro, em passos normais:


“Senta aí crentinha light, a abre uma cerveja, abre uma exceção, e aproveita e abre a cabeça, só não abra a boca; se deixe ouvir, deixe-me falar e se puder deixe de ser primitiva. Nós não prestamos, e nós sabemos bem disso, mas somos apenas reflexo do mundo, baby, não se culpe! Essa merda era assim antes de nascermos, só aprendemos a jogar o jogo que já existia, não há novidade nenhuma em termos as torpezas, as vilezas, se bem usadas seremos sublimes. Mas isso serve para quem veste a camisa, não dá pra você, eu sei! Você é uma espécie de baluarte, bibelô e marionete da moral que vocês criam pra poder desrespeitar na maior cara de pau! Contudo sabe que depois de conviver com tua hipocrisia nojenta, eu aprendi que essas regras de convivência que vocês criam serve para aumentar o tesão: só quem come sabe o prazer que é comer uma puta que prega castidade. Mas pega o que é teu e dá o fora, cansei! Leva uns calmantes e uns dvds pornôs, eu sei que você não resiste a uma droguinha e a uma cirirca bem batida, só não me chame de descontrolado, porque sobreviver-te com lucidez é prova de resistência psicológica de guerra: esse teu jogo desleal e assombroso de manipulação e distorção da imagem alheia pra exaltar teu nome e tua “bela figura” destrói a qualquer fraco, mas a mim não! E caiu de podre, crentinha! Você não presta, aliás andei os confins da sordidez humana e nestes becos lamacentos não encontrei quem carregasse tanta maldade e tanta podridão quanto si. Quer cheirar pra engolir melhor? Cheira, baby, que o pó branco, assassino e destruidor, é mais limpo que tua alma inteira! Agora não me diga que é inocente, nem faça pose de que foi tudo sem querer, largue desta artimanha que só engana a essa orda de cegos, que se enganam também como modo de passar o tempo. Chega de te ver bancar a fiscal de fodas quando tu é a responsável por verdadeiras orgias e promiscuidade, cínica do pior modo, sonsa destrutiva. Mas a culpa não é sua, você ser ordinária apenas lhe diz respeito, o culpado fui eu de me envolver contigo. A justificativa é que eu me apaixonei pela puta, essa sim era divina, essa vestia a camisa, era assumida, descarada, despudorada, só você não sente que só é maravilhosa quando não presta! Esse engodo que finge ser dá vontade vomitar, agora vem cá, divide esta carreirinha comigo, me mostra que tu ainda não presta pra ver se ainda consigo ter tesão por ti! Tenta ser assumida porque ordinária eu sei que você é! Ah, baby...”



O estrondo da porta interrompeu o pensamento, e de susto lhe virou sobre o peito o copo. Expressava-se trémulo ora por susto ora por medo:

__ Já estás bebendo? Jesus Cristo tem poder! - disse a mulher


__ Só um whiskyzinho pra relaxar, amor... como foi no culto?


__ Se quisesse mesmo saber tinha ido ouvir a palavra de Deus, que você tanto precisa... mas foi maravilhoso, uma bênção!


__ Oh glória!


__ Aleluia!

É A QUE FAZ

Quarta-feira, Agosto 27, 2008


É a que faz do homem mendigo, é a que faz o homem rastejar, é a que o faz sussurrar mesmo quando a razão lhe dá voz de grito, que sufoca e põe sorriso amarelo no rosto sofrido. É a que curva a coluna e acovarda o olhar em perspectiva de rã, é a que invade os sonos em pesadelos revoltos, é a que aspira, sufoca e evapora os sonhos convertendo a vida em a espera da morte. É a que não dialoga, que não respeita intelectualidade, nem cultura, nem nacionalidade. É a que faz o estado ser a boca aberta, é a que faz o olhar ser trêmulo e com uma ânsia de imediatismo. É a que faz da crença algo vacilante, é a que faz das promessas meras palavras soltas, é a que faz do silêncio o único e inevitável amigo, é a que faz vender a alma ao diabo por moedas, é a que faz de qualquer pão um banquete romano, é a que faz de qualquer olhar um consolo divino, é a que faz de qualquer palavra um elogio de amor supremo, que faz do toque um retoque de Deus, faz da beleza uma agressão, do sexo uma sobrevivência, que faz da alegria apenas um substantivo feminino primitivo, que faz das coxas de uma prostituta mais acolhedor que o útero materno, que faz de qualquer amor barato um romance histórico, que faz da escolha simples um luxo nobre. É a que faz da dignidade uma placa para pregar na parede junto a tantas outras coisas inúteis, é a que faz do amor próprio uma piada hilariante sem direito à risada, é a que faz de todas as ausências, hiatos, sedes, interditos e os cimas sua definição. É a que faz da ingratidão, da falta de ética, da desonra, da desmoralização seus filhos queridos e faz da humildade uma filha rejeitada. É a que se faz de indesejada e inconveniente por saber-se inevitável a todo ser humano, que quebra as cristas e esfrega os rostos na lama até gritarem sua designação, e que não relaxa a tortura enquanto não é aclamada em bom tom. É a que começa a partir esnobemente soberba quando o sujeito arrasado, sangrado, destruído e desesperançado confessa seu nome: necessidade!

A MESA PROPOSTA

Domingo, Agosto 24, 2008

Emennuel de Caravaggio, tela sobre o sermão da esperança

Esperança: s. f.,
acto de esperar; tendência do espírito para considerar como provável a realização do que se deseja; a segunda das virtudes teologais; o que se espera; expectativa; suposição; probabilidade;





A mesa proposta de quatro pratos, oito garfos e facas, quatro colheres, oito copos, quatro corpos e nenhuma comida. Ao centro uma vela iluminava toda a sala com sua luz minguante e coloria os rostos de Caravaggio. Olhares deitados sobre os pratos vazios, os lábios com o sabor da suposição das comidas que poderiam se deleitar em banhos de molhos, no sangue já corria o álcool do vinho que não veio. Mudos como uma cadeira, sem olhar desviado ou expressão de comunicativa, as caras, avermelhadas pela luz da vela, olhavam apenas o fundo dos pratos vazios.




No espaço entre os olhos e o fundo prato cabia tudo aquilo que há que se cuidar, no espaço curto de centímetros existia o há que se cuidar do futuro, o há que se cuidar da imagem, há que se cuidar da velhice, há que se cuidar do presente, há que se cuidar das dores, há que se cuidar de vencer, há que se cuidar de aceitar as derrotas, há que se cuidar de calar, há que se cuidar de não ter esperança para além da esperança de poder jantar a comida que não veio. E sentiam uma profunda tristeza porque cada componente sabia que entre tudo o que se há de fazer na vida havia intervalos de fazer felicidade, mas eles preferiam ser conservadores!




Havia nos olhares um exercício de concentração que visava a morte da espera pelos espíritos que ungem pela urgência da vida, esperavam essa bendita comida com a certeza de que a vida é apenas os sentidos dos seus corpos, que a fome que sentiam era maior que toda esperança. E a comida não vinha! Até que um desesperançou:




__ Chine in Box? Massa de arroz com camarão para quatro, por favor. - Apagou a vela, ligou a luz, matou a fome de todos e resolveu a questão. Enquanto todos matavam a fome aprendiam com este espírito rebelde a matar a esperança. De súbito ele falou a esmo:
__ Quem desesperança, desespera, e quem desespera só deixa de esperar, nada mais, e faz a vida acontecer, porque, ao contrário do que nos ensinaram, a vida é apenas drama, ação! É o desespero que faz a roda história rodar!

CANALHA: DAS MAL-COMIDAS, DAS SEQUELADAS E DAS SURTADAS

Quarta-feira, Agosto 20, 2008



O canalha tem trinta anos, perfil de galã vivido, ar de moleque, corpo de atleta, não era muito forte, mas bem dividido. Aqueles homens que causam mal-estar nos maridos já barrigudinhos e com o desempenho sexual oscilante; nas esposas com seus pneus irrevogáveis e estrias fiéis roubava aquele olhar de quem come e causava a agitação natural da fêmea despertada, cabelo para o lado, retoque na maquilagem, puxar blusa para baixo, as alças para cima, inquietação tremenda: levantam-se o tempo todo por tudo e por nada, qualquer coisa é desculpa para a exibição:


__ Jaiminho, só há três tipos de mulheres neste mundo...


__ Lá vem ele com esse papo furado, mas diz aí, quais são? - Jaiminho era um tipo comportado e tímido, bom caráter até demais. Daqueles bons que enjoam o estômago. Fora coroinha, escoteiro e agora, na idade adulta, ainda prestava serviço voluntário na Santa Casa de Misericórdia. A vida é que não estava sendo lá muito misericordiosa com ele: perdeu a mulher numa traição anal! Pior que ter sido passado para trás, foi o requinte. Caiu na boca do povo, sim porque chifre é um marco histórico na vida de qualquer homem e de cu é um épico. Seu único amigo era o Canalha, de infância, desses amigos que se entendem pelo olhar. Eram água e azeite, o Canalha era o contrário desde menino, viramundo, organizava as orgias infantis, habilidoso com mulher, relaxado por natureza, nada o aborrecia e tudo se resolvia naquela calma de camisa aberta.


__ São as mal-comidas, sequeladas e surtadas, nesta ordem, sem alterar... - disse com garbo de um sabedor, entornando um copo de cerveja.


__ Esse cara sai com cada uma... a minha ex-mulher por exemplo, é o quê?


__ Exemplo clássico de mulher mal-comida, nunca come mel, quando come se lambuza... - falou como um professor.


__ Porra, obrigado! E tua mãe?


__ Mãe é foda, mas como tou falando cientificamente, nada pessoal, vou te responder: minha mãe era exemplo muito bom de surtada. Foi mal-comida por anos, ficou profundamente sequelada até surtar. E meu amigo, mulher surtada não tem jeito. Até sequelada ainda se come, mas ultrapassou a linha é chave de cadeia...


__ Então não tem mulher feliz... - disse Jaiminho impaciente em suas discordâncias.


__ Eu não disse isso, claro que tem, mas é um estado frágil e temporário, não é uma permanência...


__ Eu não concordo!


__ Porra Jaiminho, por isso que tá com a cabeça enfeitada! Tu já visse mulher SER? Mulher ESTÁ, Jaiminho... este é o segredo, já visse não definitivo de mulher? Não existe! Já visse querer definitivo de mulher? Não existe! Elas mudam com o requebrar do quadril...


__ É, você falando assim... até... pode ser que... agora uma coisa eu tenho que concordar, elas não te largam! Já que minha ex mostrou que sou meio frouxo, já que estamos neste papo de professor para aluno, me diz uma coisa: qual o segredo?

__ A batalha!

__ Porra, levei anos para fazer esse pergunta humilhante e tu me responde com uma gracinha... - Jaiminho já estava incorporando o modo de falar de canalha!

__ A batalha, otário, é na cama; porque eu não vou pra cama com nenhuma mulher, eu vou pro campo de batalha, onde mais importante que ganhar é impressionar a adversária! Só fecho meu zíper quando tenho a certeza de que a mulher se sentiu comida por um batalhão! A Juliana por exemplo...

__ A lésbica?

__ Sequeladíssima, quem foi o último homem dela? Eu! Tratei dela como um restaurador de arte num quadro, ela tava tão mal-comida que ia pular as sequelas e iria surtar direto. Foi com primor, no grau, linguinha aqui, dedinho ali, coisa de quem sabe fazer mesmo... mas ela gostava de ténis, não confio em quem gosta de ténis, aí deixei.... - tinha o olhar perdido no horizonte

__Por que?

__ Sei lá, superstição! Ela tinha fel, dei mel e tirei, sequelei!

__ E como se identificam esses “sintomas” numa mulher. - Jaiminho já tava de riso solto.

__ Bom meu querido: isto é um tratado científico, por isso temos que partir das seguintes premissas:
primeira: toda mulher é uma mal-comida em potencial, só depende do seu talento;


segunda: nenhuma mulher é verdadeiramente sequelada antes dos trinta, depois desta idade é difícil achar uma que não seja, mas há expressões-chaves no discurso delas em que se pode identificar sem grande contato, por exemplo, recuperar o tempo perdido, não acredito no amor, meus filhos são meus amores de verdade, homem só de passagem, só depois de terminar o mestrado, minha carreira está acima de tudo. Se conjugar duas dessas expressões em meia hora de conversa é uma sequelada.

Terceira: a surtada é rápida, se for um desavisado não dá tempo de identificar, ela vai pra cama uma vez e no outro dia te liga cento e vinte e seis vezes, diz que te ama em dois dias, daquelas que rasgam tua roupa toda, que inventa para polícia que você a bateu, é facilmente confundida com uma sequelada, mas se te calhar uma dessas o melhor é dizer que você é veado, que ela foi uma recaída dissaborosa, que vocês duas poderão ser amigas. Mas cuidado, surtada não perdoa: se te vir com outra mulher, seja em que tempo for, vai fazer barraco. No fundo é apenas uma mal-comida elevada décima potência.

__ Rapaz, tou impressionado! Agora você tem que convir que sua tese é canalha no último grau! - Jaiminho segurava o queixo com a mão!

__ A mal-comida é a portadora da esperança, porque ainda acredita! Comer mal uma mulher é prova maior de amor e o canalha é o verdadeiro redentor humano! Há verdades muito canalhas, Jaiminho! - suspirou.

__ Demais! - lembrou

__ Canalhíssimas!

PARA QUE SERVE CAYMMI?

Terça-feira, Agosto 19, 2008



Eu respondi assim a um leitor de um Jornal de Guimarães, em Portugal, que se chamava José Limão e não via a importância que o veículo dava a Caymmi:


Ai deste Limão que não semearia em terras brasileiras, deste Brasil tão vasto, e tantos Brasis que não cabe no cérebro-semente de um Limão. Azedo e hermético em círculo este Limão representa uma parte deste Portugal, que ainda sofre deste mal azedume da ignorância e do fechamento em círculo. Ai de ti Limão que não entende de comunicação, nem vê que todo movimento de massa é Estadosunidense, desde a criação da caixa luminosa (TV).


Limão o Brasil te perdoaria e te redimiria com o açúcar e com o afeto de Luiz Gonzaga, de Catulo Da Paixão Cearense, de Lupicínio Rodrigues, de Adoniran Barbosa, de Mário Lago, de Ataulfo Alves, de Pena Branca e Xavantinho, de Renato Teixeira... o Brasil te amoleceria com João Gilberto, te requebraria com Candêia, com Geraldo Babão, com Mano Heitor, com Noel Rosa, com Ciro Monteiro e Geraldo Pereira, com Nelson Cavaquinho, com mestre Marçal, com Pixinguinha e Cartola. Te ensinaria toda malandragem de viver com Bezerra da Silva, com Dicró, ZÉ Keti e Moreira da Silva. Isto para não citar os elegantes que já foram, Vinícius, Tom, Baden e os da atualidade, e já me desculpando com os que foram esquecidos neste redigir rápido e ungido pelo Limão Azedo. Te mostraria, sim: porque o bom brasileiro já dizia Mario de Andrade escreve TE mostraria, TE queria, TE ensinaria, porque é mais doce, e não impões: pede, caro Limão. E é esta doçura gostosa danada, como se diz no meu Recife, Recife cidade que te mostraria a humildade em nobreza de dona Celma do Coco, de Lia de Itamaracá, de Capiba, de Antônio Maria, de Getúlio Cavalcante, de Nelson Ferreira, de Felinto e de Pedro Salgado.



Limão aspira a ser laranja, doce como dona Edite do Prato que anima o samba de roda da Bahia, Bahia que recebeu os portugueses com suas índias lindas e nuas, todas opulentas e dengosas que só um samba da Caymme o é!


O Brasil nasceu na Bahia,
Caymmi nasceu na Bahia,
O Brasil é Doce,
Caymmi é mel,
Logo o doce mel do Brasil é o Caymmi da Bahia!


E desta doçura há de cair uma gota nesse Limão tão amargo de tragar, mas bonzinho que somos ainda faríamos de ti uma caipirinha, porque “o samba da minha terra deixa a gente mole, quando se samba todo mundo bole... quem não gosta de samba bom sujeito não é, ou ruim da cabeça ou é doente do pé...” Caymmi

AMOR DE SUBÚRBIO

Sábado, Agosto 16, 2008

Esta foto é da Ponte da Amizade, Recife. Lugar por onde passava diariamente para caminhar, esta ponte divide a parte muito rica da parte muito pobre, foto marcante para mim, aliás este trecho da cidade é causador também do meu auto-exílio




Amor de subúrbio se dá nas ruas mal acabadas, entre construções incompletas e luz insuficiente, nasce de alguma conversa banal, num momento comum. É bem comum, como todo amor. Vê a novela das seis, mas não a das sete, é hora do encontro num portão de zinco, ela de cabelo molhado e olhar de quem depende, ele com uma roupinha bem passada e conversa de quem sonha. Eles trabalham em alguma padaria ou mercado. Ele faz ar de sério e ela faz ar de quem acredita, bonito!




Amor de subúrbio se consuma atrás dalgum muro alto, no terraço escuro ou, quando em luxo, no sofá da sala, no momento em que os parentes dão uma brecha. Pretensioso, vez ou outra vai ao motel, sacrifício danado; paga o táxi, que foi estudado onde poderia ser apanhado para caber no bolso, o frigobar é intocável como um altar sagrado, mas na cama eles dão um show e entre lençóis baratos, sobre o colchão alugado por três horas exatas, fazem rigorosamente tudo que o amor, de subúrbio ou não, faz depois do sexo: prometem fidelidade eterna, se confessam em confiança indubitável, fazem afirmações mútuas de virtudes raras de ambos, prometem amor incondicional, choram, afirmam um amor maior que os demais, concluem que é sem dúvida o maior amor de suas vidas, que ainda nem começaram a viver, enfim eles dizem milhares de coisas de amor que o tempo devora.




Amor de subúrbio tem crédito, compra no cartão, parcela roupas de grandes magazines, não vai ao cinema porque tem DVD, ouve Ana Carolina e se acha diferente por isso, e aos poucos vai se afastando da origem. Eles planejam um casamento, um apartamento num subúrbio um pouco mais estruturado, estrangulam-se no cheque pré-datado, trocam o sono e o lazer pelas angústias das dívidas e anseiam pelo dia em que poderão negar que foram, n´algum tempo, um amor de subúrbio. Eles casam com a pretensão, se juntam para colocar a nariz de fora da maré de lama, pouco pensam-se, sentem-se, vão caminhando para pagar o próximo carnê e comprar próximo móvel. Passam anos atados pelo sacrifício de se mostrarem melhor, num jogo de cinema, onde tudo tem que ser tão-somente a imagem projetada. E um dos dois vai acordar e perceber que entre a barriga da mãe e o túmulo há um intervalo curto demais para possuir um profundo tédio como estilo de vida e não ter a quem se confessar como remédio. Daí nascem os amantes, as crises existenciais, as reflexões sobre felicidade e função vital. Mas aí já não é amor de subúrbio!

CRÔNICA DO TRAVA-LÍNGUA

Quinta-feira, Agosto 14, 2008

Resposta a um desafio de uma amiga paulistana, que disse "quero uma crônica de mote o trava-língua Três Tigres Tristes". Fernanda, tá aí sua encomenda nefasta, morena linda e provocadora. Se fosse menos, não me dava ao trabalho!

Trago o traço atroz e troço o trio. Tribo trêbada trança triângulos em triunviratos trovadores. Trovões triunfantes trituram esta tremenda triagem, este tronco transcendente transfere, transporta e traduz o truco em trindade! Tromba traquina a trégua entre o atrito troglodita trípede tricéfalo e o trabalho trocado; trouxe o tracinho de trás, do trapézio triocular em trevo. Tramou transas triangulares tremendas entre intrusos extrovertidos, introvertido transeunte! Tranca: a traça da intrepidez, a motriz travada no trampolim, a matriz do átrio atrevido e o tredo trunfo trifásico! Trevas intratantes em destroço, detritos trôpegos traumatizados e tristes!
Triteo trava este troço tricolor travado em tri!

O TABERNEIRO NIILISTA

Terça-feira, Agosto 12, 2008




O Taberneiro Niilista é o sr. Costa, artista plástico por hobbie, debochado e cínico por método; acompanhado do seu do seu fiel escudeiro Filipe de um metro e sessenta, cinco centímetros a menos na perna direita, seu barman e sobrinho, quando convém.



__ Sr. Costa, tou de partida para Pequim... - avisou com entusiasmo o estudante de jornalismo.
__ Você vai meio atrasado, as Olimpíadas já começaram.
__ Não, para o que vou, vou a tempo; sabe que é essa faixa enrolada?
__ Não faço idéia, pensei que fosse um alojamento de última hora...
__ Nada disso, aqui estão pintadas duas frases que vão fazer a diferença...
__ Filipe, vai começar o massacre da serra elétrica, me dá um dedinho de whisky... eu sei que vou me arrepender muito mas.... o que tem escrito na faixa de tão importante?
__ FREEDON FOR TIBET AND WE MUST TOUGHEN WITHOUT LOSING THE TENDERNESS! Vai ser um estrondo, o sr vai ver pela televisão, vou chegar aos lares do mundo com minha mensagem...
__ Mas traduza pra esse taberneiro burro, com a quarta série mal feita....
__ O Sr. sabe, um artista, intelectual...
__ Não me chame de artista, isso é coisa de veado e tenho horror a intelectual, fico enjoado só de ouvir o nome. FILIPE, dobra a parada, trás uma dose dupla, sem gelo!
__ “Liberdade para o Tibet e Há que endurecer sem perder a ternura”. Não é forte?
__ Filipe, pelo amor de nossa senhora troca o whisky por uma copo de cana pura. Agora Filipe, agora!
__ Eu sabia que o sr. iria ficar emocionado...
__ Tou sem palavras, emocionadíssimo! Colocar o Che Guevara no Tibet falando inglês num país comunista é um ato para pouco raros. Jesus, tem piedade desse espírito sem luz!
__ Jesus? Mas senhor não é ateu?
__ Meu filho depois do que você conseguiu fazer eu acredito até em cegonha!
__ Mas o senhor não vê que isso vai chegar aos menos avisados, que vão ver essa faixa e pensar melhor?
__ É, vai mudar o mundo!
__ Eu também acho, por isso preparei um discurso... casa tenha que falar pra televisão...
__ Em inglês?
__ Sim, linguagem universal, temos que pensar nessas coisas... tou levando O Capital também para realçar minhas convicções...
__ Realçar convicções, e é algum quadro pra realçar tintas, é?
__Quero mostrar à China o verdadeiro socialismo, por isso tenho que levar o ninho das idéias...
__ “Ninho das idéias”, mas uma cria do PSTU, Filipe cancela o copo e traz a garrafa, mas traz cheia pela boca e sem copo... filho me diz uma coisa, quem vai pagar essa viagem que vai mudar o mundo?
__ Meu pai, ele conseguiu dividir no Visa em dez vezes aí fica mais fácil....
__ Pare, pare, pare! Deixe eu entender esse samba do crioulo doido: você vai levar o Che para discursar em inglês pela liberdade dos carequinhas budistas, que você nem sabia que existia a dois meses atrás, pago com o Visa do seu pai, levando O Capital para mudar o mundo com uma faixa, dando entrevista com convicções dos velhinhos do PSTU em inglês, para ensinar a China do Mao o que é “socialismo de verdade”? É isso?
__ Isso, não é genial esse paradoxo, é usar o sistema contra o sistema, entendeu a jogada?
__ Filipe quebra uma garrafa, quebra uma cheia: em homenagem ao coitado do pai desse rapaz, que não bebe. E essa vou beber no gargalo... é por isso que eu bebo, é por isso que eu bebo muito!

CONFISSÃO A NSSª SRª DO SILÊNCIO: A LUA

Domingo, Agosto 10, 2008

Fernando Pessoa chamava a lua de Nossa Senhora do Silêncio e dizia que só a ela era capaz de se confessar


Quando a primeira marreta destroçou a parede branca de alvenaria, derramou-se o líquido escuro das lembranças de infância. Morria naqueles tijolos quebrados o elo concreto com o passado, desfazia-se ali, em crime sem castigo, a única e irrecuperável personificação física entre o homem e o menino.


Na casa que caia às marretadas, cortavam-se as raizes profundas da memória e a árvore homem era, agora, flutuada a meio milímetro do chão real, de ligação apenas metafísica e sentimental, mas sem nenhum objeto fálico para representá-la além das lembranças, tendenciosas por natureza! O som estrondoso das batidas e dos estilhaços rompia o silêncio arrebentando as correntes do tempo real com o tempo saudoso. E o menino, que corria pela casa povoada de tios solteiros, onde um era roqueiro, outra ouvia Maria Bethânia, outro colecionava revistas pornôs e todos almoçavam juntos sob supervisão brava de patriarca paraibano, agonizava! Ele comia manga no colo do avô, comia bolo de feijão com farinha melado no molho de carne, que se fazia a melhor comida do mundo no tempo da saudade; o menino curioso, que ouvia histórias de todos, reais ou não, perguntava a avó alagoana se ela tinha aquele feijão e o comia fazendo a junção daquilo que ouvira com aquilo que criava na sua cabeça, construindo suas próprias histórias, aprendia seu ofício sem o saber.


Naquelas paredes, que tombaram em nome de Deus sabe o quê, havia a vida das mãos que as percorreram, havia os anos que morreram em ver a todos crescer e partir. No retrato do sentimento todos estavam vivos e indeléveis, mesmo que que muitos no tempo do hoje já estivessem mortos, mas hoje todos morreram. Morreu o retrato, morreu o almoço, morreu o espaço que ouviu segredos, confissões, revoltas, juras, morreram lugares históricos: “foi aqui que vovô disse isso”, “aqui vovó flagrou aquilo”, tudo isso morreu quando a primeira parede caiu!

Tu, pequeno príncipe, que é-se por não saber o que é majestade, faz teu reino, faz tuas marcas na parede, que não sejam grandes demais para serem reparadas, nem pequenas demais para que não te esqueças delas, e quando o tempo galopar sem piedade, visita e revisita as marcas do teu tempo construído no teu universo particular, que é e será sempre mais importante que toda história universal. Só não permita que derrubem as paredes da teu museu vivo, não permita que sintas, em vida, a saudades que só os mortos têm!

A MORTE ANUNCIADA DA ESPERANÇA

Sexta-feira, Agosto 08, 2008

Dois assaltantes invadiram uma agência bancária em Lisboa e mantiveram refens dois funcionários durante mais de oito horas, o desfecho se deu com a execução dos assaltantes que se preparavam para sair da agência em fuga. Os assaltantes eram de nacionalidade brasileira.


Dois corpos, duas balas, dois reféns, dois crimes, dois criminosos, duas esperanças mortas em dobro! No fatalismo da vida os acontecimentos se ordenam assim, de modo cabalístico, matemático, racional e teoricamente correto. A vida é um tiro preciso, pontual e cefálico em suas definições. Já em suas possibilidades é uma garrucha velha nas mãos de um cego num quarto escuro.
Quando as balas estouraram dignamente as cabeças dos criminosos, espirrando sangue em explosão, cada gota era um sonho frustrado, cada pingadela era um desejo contido e untado pela pressa de não precisar mais correr. Pobre brasileiro que não aprendeu que ninguém tem nada de bom sem sofrer, pobre povo que é refém de sua imagem e profeta de uma crônica de morte anunciada pelo seu sorriso de malandro esperto, pobre Brasil! Imigrar é um desespero, entrar para o crime é outro, e a vida, para isso se soma em harmonia, quando a esperança na terra tupiniquim esmoreceu o primeiro desespero tomou conta, quando o primeiro desespero se mostrou uma piada, o segundo os dominou! Senhores, é a morte da esperança em progressão geométrica.


Sofre o ego brasileiro, não foi um assalto ao trem pagador, não foi um grande roubo ao cofre Francês em Cannes, não! Foi uma invasão primária, numa jogada infantil e inconsequente de dois bandidos burros, morreram, ou se mataram como queiram encarar, mas não sabiam que hoje todo brasileiro que vive fora de seu país os compreendeu e os amaldiçoou.


A vontade que dói, o corpo que cala, o sorriso que suporta, os ouvidos de não ouvir, a certeza de ser-se sempre o quinto plano, ter-se valor e comê-lo com apetite de agradar aos outros, poder voar e amarrar as asas para não ser diferente, perder o sotaque genuíno, e única riqueza real, para falar de modo enjoativo só para tentar ser aceite no ninho, o patinho feio por excelência e sem redenção, e poderia derramar uma hemorragia de expressões sobre atitudes que todos os brasileiros, que são condenados a comer o pão com o suor do seu rosto fora do Brasil, conhecem de cor e salteado, e mesmo assim o Brasil não os convida! Ai de ti Brasil, ai de ti! Morrem com eles, que só levaram dessa aventura de viver a dureza, consistência, solidez e densidade do chumbo que lhos invadiu as cabeças, a esperança no mundo melhor, a esperança no ser humano.


Neste labirinto esquizofrênico de razões, onde o ser parece um dopado de verdades absolutas é preciso amanhecer e bater palmas para a ação exemplar da polícia! Quando a humanidade vem louvar e elogiar assassinatos é porque já não dá para compreender absolutamente nada, só se recomenda diazepans em massa para suportar e incutir o verso de Álvaro de Campos “... e tu Brasil, blague de Pedro Álvares que nem te queria descobrir...”

APRESENTEM-ME A MIM

Este texto é para uma libélula que em pouco tempo será borboleta, Karla, amiga da Alemanha


Nem deu bom dia, entrou, fechou a porta, não sentou e começou a andar de um lado para o outro:


__ Dr. ouça bem, mas bem caladinho aí no seu canto:


Dr. eu vim aqui pra falar de justiça. Foi apenas por isso que procurei um psiquiatra, porque eu quero apenas o julgo do meu surto! O sr. não sabe, mas a bem pouco tempo eu era apenas uma aventureira passional, vagava pelos amores banais por capricho do meu querer tão vasto. Era assim, quando eu raiava onda passava e dominava às atenções com minha gargalhada abertamente escandalosa, ah dr. sou filha Iansã e embelezada na pele negra de Oxun. Nasci para dominar com uma mão de ferro e amolecer com a outra de dengo; é no meu rebolado, quando jogo meus cabelos vermelhos que o mundo se curva, aí é meu reinado dr.! Sabe quantos homens eu pus de joelho, só pra contabilizar e rir? Não dr., o sr não faz idéia... sabe quantos projetos de vida eu já desfiz? Ah, eu sou pernambucuna, por isso afoita, é na ponta da minha língua afiada que até os punhais ficam cegos. Foi no mar de Boa Viagem que meu corpo foi lavada e esculpido, a minha graça vem da brisa de Olinda, que me sopra com ar de safadeza e clima de quem quer vadiar! Menina moleca, acredite dr.! E isso é muita coisa, e para poucos, acredite dr. Comer batata, ser mãe de susto, casada com um gringo, sedentária, sem meu cabelo vermelho, domesticada, indo no parquinho de fim de tarde, engordando, e sendo obrigada a falar de samba pra alemã, como se eu fosse adido cultural do Brasil, e como se não bastasse vem a peste do tempo me joga trinta anos na cara sem mais nem menos, assim é sacangem demais para uma só! O que porra foi isso, dr.? Essa tal de sensatez, que dizem que devo ter, nunca me bateu a porta para perguntar se era isso que eu queria! Essa tal calma, para que serve, para prostrar na cama e acumular barriga? Eu me recuso a falar de samba no parquinho alemão, isso é ponto de honra! E outra coisa: quero um toque para Iansã em alemão, com baianas de München! Não há transcendência filosófica possível na batatolândia, dr.... sabe quando se pede o direito de ser-se, é aquela vontade de olhar no espelho e me ver, nesta incompatibilidade de imagem não dá pra ser feliz, sem dó o espelho não mente nem um pouco para mim. Em pouco tempo não sobra mais eu pra mim, e alguém vai ter que me apresentar a essa estranha que estão brotando-me. Porque eu sei quase nada, mas sei precisamente que essa não sou eu... e eu só vim aqui e agora lhe dizer que isso não é justiça que se pregue, longe de ser justo. Como alguém precisa me ouvir, que seja pago... agora me dê uns calmantes bem fortes, já que não é capaz de mandar um raio de Oyá que comande os ventos, as forças dos elementos, que tinja meu cabelo de vermelho e que faça da minha bunda a bandeira mais bonita da minha nação, para hipnotizar por baixo enquanto domino por cima! - fez uma pausa, acendeu um cigarro - O sr. já pode segurar o queixo, limpar a baba e escrever o nome do calmante, eu acabei! - agora olhava-o com estranheza e susto - O sr. está bem? Feche a boca, homem!


__ Tenho 51 anos, um mercedez 2008, um plano de reforma privada milionário, alguns apartamentos, uma mulher murcha, dois filhos que são mais chatos e velhos que meu pai. Diga sim que mando tudo isso pra puta que pariu agora!


__ Oxe , mais um surtado! Da próxima vou direto ao manicômio!

MULETAS

Terça-feira, Agosto 05, 2008



“Não me leve a mal, ou leve. Quando esta carta estiver aberta meu poder de pedido pouca força terá. Não me alegro em tomar esta atitude, mas também não fico triste. Decidi como quem escolhe um lado, eu pulei no lado escuro e para mim foi mais atraente que a clareza de estar ao teu lado. Imprudente e irresponsável? Não! Definitivamente não, ao seu lado o princípio, meio e fim eram claros, óbvios como as manhãs, sem surpresas e com um fim previsível. Minha alma deve arder por querer diferente? Entenda que não há relativização de superioridade, não pretendo o melhor nem o pior, pretendo o diferente. Evidente que um diferente mais seguro, um diferente mais próspero, com atitudes e força para que minha alma desfaleça todos noites sem o medo do que será amanhã. Desculpe-me mas miséria não é estilo de vida, miséria de amor, miséria de carinho, miséria de pensamento, miséria de ambição. Não sei se teu sistema de vida e morte o satisfaz, mas a mim matava a felina mais traquina, cortava as pernas andejas dessa nômade irrecuperável. Eu não sou de lanches, poucos banquetes tem capacidade de me suportar, eu troco passos onde seu instinto domesticado, que não é nem pior nem melhor que o de ninguém, nunca chegou a imaginar, nem nos sonhos mais delirantes. Entenda uma coisa, eu sou forte, decidida, dinâmica, comunicativa, mas eu sou uma menina. Menina que sente falta dos braços fortes do imaginário, braços que suportam-me para que possa me esbaldar nas minhas posses e devaneios, sem obrigação de ser nada em definitivo, justamente porque tenho os músculos de aço onde eu posso me recolher nos momentos de retirada e me sentir o que nunca vou deixar de ser: uma menina desprotegida que consome as fibras musculares dos bíceps fortes como tranquilizantes para alma. E tudo fica claro neste ponto, porque as coisas chegam a um maniqueísmo esclarecedor da minha atitude: o alimento de que necessito ele tem e você não!”



“Não me ame! Não deforme a relação com os torcidas que o amor precisa para ser classificado, não me ame para não ter que me ajustar aquilo que se chama de amor, não me ame para não me amaldiçoar a ser esse paradigma esperado, não me ame para não me matar! Não diga que me ama para que eu não desconfie de cada palavra e gesto seu, como se fossem apenas atos vagos para provar que me ama, não semeie a desconfiança do amor. Não me ame para que eu não tenho a obrigação de mentir para corresponder ao teu sonho de sentimento e pior, para que eu não tenha a culpa condenatória de também te amar. Não me ame porque tudo foi e é bom como está e começou: sem amor. Onde meu cinismo cético é feito em liberdade, onde sua altivez é espontânea sem ser agressiva. Você me diz que ama hoje e tudo muda, eu não serei mais o mesmo porque agora sou escravo das expectativas do seu amor e você não será mais a mesma porque tem a obrigação de me amar e corresponder ao sentimento que criou! Ahh minha linda, essa história de amor estraga tudo. Não me ame para que eu não passe de possuído à posse, para que eu não passe de um pássaro que volta pelo sabor do mel a um cão encoleirado que volta pela obrigação e responsabilidade com sua dona. Você não entendeu que o bom é gostar, confiar, desejar, deleitar e não amar! Eu quero o meu direito de não te amar sem ser amado; desse modo de amor de picuinhas, questiúnculas, controles minuciosos, satisfações sufocantes, relatórios obrigatórios e disputas de intensidade de amor eu não quero nem aproximação. Amor é liberdade, minha linda! Amor mesmo era o que tínhamos antes de você estragar tudo dizendo que me ama!”



Era um café charmoso, e em mesas paralelas um homem e uma mulher choravam suas dores, com cartas na mão...



__ Posso te ajudar? - perguntou o homem com os olhos lavados em lágrimas.
__ Só se eu também puder te ajudar... - disse a mulher enxugando as lágrimas e forçando um sorriso.



E aí surge mais um romance. Dois corpos apoiados numa muleta, como quase todos os amores reais!

É DIA

Domingo, Agosto 03, 2008



É dia de falar muito, excessivamente, numa verborragia incessante, derramando o sangue das palavras e o espalhando pelas paredes brancas das concepções, tonalizando de vermelho a harmonia do diazepam. Falar muito, palavras confusas e raras, expressões desconexas como num sonho, e alto, bem alto, sem gritar, porque é dia de falar e não de histeria. Falar até as palavras secarem, dizendo as mais inconfessáveis vilezas, tudo isso sem pronunciar uma palavra!


É dia de invejar os efusivos, que explodem em sua artificialidade todo seu gênio e sentimento, que mesmo não resolvendo seus dilemas, dão dinamismo à vida, mobilidade aos assuntos e talvez fiquem de peito aliviado apenas por falar barato; para os desgraçados que apenas o silêncio e a velocidade do pensamento são companheiros aleijados de confissões só cabe a inveja descarada das pessoas que abrem suas víceras de modo escancarado e sem pudor.


É dia de tragar um grande copo de café e com plástico impermeável tentar asfixiar aquela mágoa velha, sufocar aquela ofensa, aquela dor, aquela frustração, e alimentar esse ódio que move o ser humano, é dia de nutrir todas a subestimação, lembrar de palavras por palavras dos que lhe menosprezaram e escarnearam seu valor humano, por descrença ou por pura maldade. Nessa usina de moagem é dia tritura rancor, ódio, desprezo, descrença, humilhação, repúdio e orgeriza, extrair como substrato a compulsão e servir com café adoçado como melaço grosso da inteligência sarcástica!


É dia de ver a mineralidade das pedras e entender as negações da vida como o sabor das rochas do sertão e rir de lado desse sabor lúgubre. Ranger a língua entre os dentes quando o surto medonho alterar as batidas do coração, servir compressas de gelo sobre os joelhos quando eles não conseguirem mais dobrar de tão exausto dessa caminhada. Sem ter saído de sua cadeira, nem pousado o copo de café, poucos sabem onde se pode ir sentado, com um pouco de melancolia e um café bem feito!


É dia de ir comprar pão, e encontrar um vizinho, que lhe cumprimentará com sorriso de dentista:
__ Olá, boa tarde! Como vai você, vizinho?
__ Bem obrigado, na mais perfeita harmonia! E o senhor?
__ Estou ótimo!
__ Então até logo
__ Até mais ver!
E você se perguntará quem mentiu mais de nós dois!

RECUSE-SE ÀS TENTAÇÕES, MARIE

Terça-feira, Julho 29, 2008



Recuse-se às tentações, Marie


Recuse-se à tentação de ser santa! Goze muito, nos mais variados corpos, nas bocas mais carnudas, em embalos profusos. Não ceda à tentação de ser sacra!


Recuse-se à tentação de ser sensata! Não faça do medo um conselheiro, e quando seus joelhos estiverem se dobrando à covardia pergunte a um aleijado se ele queria correr, pergunte a um impotente se queria uma ereção, pergunte a uma africana mulçumana se gostaria do orgasmo de clitores, que lhe foi amputado. Não ceda à tentação de achar que ser sensato é ser medroso!

Recuse-se à tentação de ser humilde! Abuse da sua graça, sem querer parecer, simplesmente brilhe, sem glória ou vitória, seja apenas e exclusivamente você, não deixe de brilhar só porque a humanidade é opaca e convencionou que isso é paradigma. Não ceda à tentação de se apagar só para se misturar!


Recuse-se à tentação de ser coerente! Diga muitas vezes eu te amo, sem a preocupação banal e pesada se é ou não de fato amor, de forma simplória diga eu te amo, e se amanhã não for, no momento preciso em que foi dito era amor sim! Nada tem a obrigação de durar. O dito de hoje pouco tem a ver com os ditos de ontem. Não ceda à tentação de suprimir seus erros necessários por causa de uma imagem convencional!


Recuse-se à tentação de ser pacifista! Brigue, sem limites, sem regras para defender seu lado tão frágil, e quando lhe cobrarem tanta violência e tenacidade jogue-lhes com um livro de história universal no peito. Não ceda à tentação de ser mais um cordeiro manso, que vai cândido para entre lobos!


Recuse-se à tentação de ser importante! Quando a proposta chegar e, por doce ou para valorizar o pedaço, você pedir um tempo, vá a uma ala de pacientes terminais e pergunte quanto tempo precisam, seja para o que for, mesmo que seja apenas para ver a paisagem da jenela. Um mês? Uma semana? Um dia? Uma hora já seria bom negócio, acredite! Não ceda à tentação de protelar a respostas que já tinha nascido antes da pergunta, nada justifica e vida está por um fio, haja de acordo!


Recuse-se à tentação de ser virtuosa! Se é em carne comprometida, em boca partilhada, em sexo dividido que você se encontra, se apura, se afrouxa e se refaz não estanque a vida em nome de nada, porque nenhum argumento é suficiente para sorver o derrame vital. Na prática não há virtudes, há bem-estar ou não. Não ceda à tentação de ser abstinente em nome da pureza, não esqueça que no cemitério os corpo, cobertos por terra e laje, fazem isso todos os dias, por séculos a fio. Você inevitavelmente também terá essa oportunidade!


Recuse-se a tentação de ser obediente! Quando findar esta leitura não pense duas vezes em questionar por que este autor não estava vivendo, ao invés de vir lhe dar moral. Já que ele sabe viver, que viva. Não ceda à tentação do despotismo esclarecido. E quando isso acontecer, pequena Marie, é porque este texto já está podre e já corre tatuado na massa do seu sangue!


Só não se recuse à tentação de ser talentosamente cínica e debochada, porque aí todos dirão que você é um exemplo de mulher santa, sensata, humilde, coerente, pacifista, importante, virtuosa e obediente. Assim caminha a humanidade, pequena Marie!

DOR DE GARGANTA da série cínicos - 2

Domingo, Julho 27, 2008


"A Metafísica é a consequência de estar mal disposto" Fernando Pessoa



Sábado modorrento, nublado, entediante e a televisão propunha passar o tempo:


__ Tou com a garganta inflamada! - disse o Cleber com voz rouca e uma cara caída.


__ Cleber... - fez uma pausa dramática – Você me ama? - disse Fernanda olhando para as mãos, com um ar de quem esperava o previsível.


__ Vou fazer um chá de limão, tem algum antiinflamatório ainda?


__ É, porque agora já não tem mais romantismo, agora é cagar de porta aberta, peidar na cama, beber água na garrafa, esse negócio virou bagunça...


__ Eu tinha o nome de um remédio muito bom... não sei onde coloquei!


__ Antes você fingia gostar, demonstrava em público, fazia gestos carinhosos, minhas amigas ficavam babadas por isso... agora lamentam!


__ Sabe o que é pior? É a dor no corpo, uma moleza, uma preguiça... quero comer e não tenho coragem... - Cleber prostrado enterrado no sofá...


__ Na verdade eu acho que mereço mais, você se tornou pouco para mim... o que eu quero da vida é outra coisa, isso não é vida!


__ Só quero cama...


__ Cama? Nossa senhora, nem parece o mesmo, a coisa está cada vez menos e mais espaçada, umazinha de vez em quando... dá até para sentir saudade.


__ O remédio se chama paracetamol, é isso... esses nomes químicos são ruins de dizer e pior de lembrar...


__ Se eu fosse você tomava viagra também e qualquer remédio para aumentar a virilidade! - Fernanda esta agitada e Cleber num cochilo bem leve. __ Acorda, acorda, acorda porra! - Fernanda perdeu a linha.


__ Uuuui minha garganta! Ok, vamos a isso então por partes e com calma: não te amo, cohabitamos, e o romantismo acabou porque eu casei com uma neurastênica bipolar, se estivesse na minha pele você não seria românctica com louca histérica 24h por dia; como é que posso demonstrar amor por uma pessoa que destroe a minha imagem para todos? A nossa casa se murar é um hospício, se cobrir com uma lona vira um circo! Eu quero é que você tenha mais, ou menos que eu, sei lá. Não se esqueça que me separei de ti três vezes e da última vez você fez greve de fome na porta do ap com as malas nas costas, dois dias de tortura! Você quer me infernizar, me deixar maluco! E se tivesse os quinze quilos a menos de quando eu te conheci ainda te comeria na mesma intensidade, mas te olha no espelho e me diz se dá pra ter mais que uma intenção fraquinha? Sem contar a disputa, se eu digo o que livro é bom passa automaticamente a ser detestável e chato, se aquele restaurante me agrada a ti dá repúdio. Garota, entenda que eu não sou teu pai, vai cobrar teus traumas noutro balcão! Se tua mãe era uma bêbada que não te dava atenção não é culpa minha... aliás o teu último analista fechou o consultório e desapareceu por tua causa... Você ameaçou de lhe dar um tiro se ele falasse bem de mim... Ahhh se eu te batesse seria mais simples, você se apaixonaria,iria confundir minha figura com a de teu pai, mas já chega o estrago que me faz diariamente, fazer isso seria não ser eu, embora convenhamos que é bem merecido... ir embora para onde? Você não larga o osso, esculhamba e idolatra... é, minha cara, você um problema para tomar com whisky... minha garganta não pára de arder ... quando a máquina de café deu problema eu tinha onde reclamar, seria tão mais fácil se fosse como a máquina... casar é não poder desfazer o mal negócio sem prejuízo profundo... e se minha garganta não tivesse ardendo tanto ainda tinhas umas meia dúzias de palavrinhas!


__ Pegou pesado! - disse quase num sussurro.


__ Eu avisei que minha garganta estava doendo...


__ É melhor te dá o antiinflamatório...


__ ...um viagra e um calmante, por favor!

DO REINO PARALELO

Quinta-feira, Julho 24, 2008


__ Pai, é hora de conhecer a vida real... esse lado tão falado, essa exaltação... Esse nosso mundo paralelo é à parte disso tudo! – era um rapaz na adolescência busacando forma de estancar a rotina.

__ Sei, eu concordo, se é isso que quer, eu apoio! - disse serenamente o homem que beirava os cinquenta anos.

__ Mas é que tem tanto mito sobre esse mundo real...

__ Primeiro não são mitos, isso que se diz é tudo verdade! Deixe eu te explicar mais ou menos como funciona o esquema: aquilo se divide em sociedade de classes, ou seja, na prática melhores e piores.

__ Sério? - absurdado.

__ Toda sociedade e em todo lugar, e quando não tem disnível criam-se rápidamente. Eles têm essa coisa de se sentirem importantes e pra isso humilham uns aos outros, esnobam-se e até escarneiam-se... Por exemplo: aqui as pessoas se aculturam e buscam o conhecimento para melhor compreender os contornos da vida, para se comunicarem melhor e interagir de modo eficiente, agregando a tudo e a todos; lá é o contrário, quanto mais culto e erudito o sujeito fica, mais impopular, menos compreensivo, mais boçal, mais pedante, arrogante e por fim solitário! E no fundo se achando o máximo, não é engraçado?

__ Nossa! - estupefato.

__ Mas isso é o começo, a base dessas tais classes é o acúmulo. Quem mais acumula, melhor é! Já pensou que loucura eu, nesta selva, juntar 200 pés de cerejeira para que? Mas lá é assim! Depois o vizinho, quando nota o acúmulo do outro tenta superar, se não consegue defama. Ladrão é o nome mais leve, isso numa reação em cadeia e crescente. E eles chamam isso de um nome bonitinho, como se chama?!... Lembrei: EVOLUÇÃO, é isso. Na verdade nem sei significado desta palavra!

__ Eu estou perplexo com esse tal de mundo real... - disse o filho puxando um cogumelo gigante para sentar.

__ Mas não pára por aí, lá tem um tal de trabalhador, que esse quanto mais se esforça menos tem e quanto mais se mata menos é respeitado; e proporciona o ócio a algum sujeito, que esse, sim, consegue todos os desejos só por poder explorar. Paradoxal? Ainda não acabou. Ser trabalhador em teoria é bom, mas quando se refere a um sujeito como trabalhador é uma pejoração, “fulano é um trabalhador” isso é um certo desprezo declarado. Logo quem não é trabalhador é virtuoso, mas como se o trabalho, como eles pregam, dignifica o homem?

__ Muito complicado!

__ Complicadíssimo! É, filho, essa tal de vida real é absurda. Ver e não poder tocar, ter fome e não poder comer, correr para um obejetivo cada dia mais distante, que se afasta de nós com velocidade 3 vezes maior que a nossa, quanto mais correr, mais distante vai ficar. Eles possuem um tal de poder, coisa da cabeça deles, mas poucos alcançam essa dádiva, nenhum trabalhador certamente chega a ele. Dizem que tem um país onde um conseguiu, mas esse já não era trabalhador há tanto tempo que já havia se desentoxicado desse mal. Eles também tem alguns deuses, que são os mitos maiores, o centro de virtudes e exemplo, paz, harmonia e equilíbrio para eles. E é em nome desses deuses que se matam, que se discriminam, que criam os tais níveis de superioridade, dessa vez divididas entre abençoados e malditos, de acordo com conveniência de quem manda. Realidade absurda... houve um jovem nosso que foi conhecer, tinha a mesma curiosidade que a sua, um tal de Kafka, classificaram sua obra de literatura do ABSURDO, porque ele descreveu o que via tão claro!

__ Então tudo é ao contrário? - o rapaz estava derretido.

__ Quase, lá eles contam tudo tão certinho que parece normal, esse é o perigo: achar normal a vida real. Porque lá vale apenas a opinião de quem vence, os vencidos não tem vez nem voz, assim a história fica fácil de contar...

__ Não tem uma outra dimensão para eu conhecer, essa tá meio podre, né?

__ Meio não, toda! Mas vocês jovens querem tirar férias em lugares exóticos, olhe tem o reino dos desenhos animados e dos sentimentos sufocados. Confesso a ti que iria para os sentimentos sufocados, lá se aprende muito também sobre o reino do mundo real. Tudo que eles sentem e oprimem, sufocam e matam vão parar nesse reino, ali é só a verdade que a mentira expulsou da vida real. Essas verdades ficam dialogando sem parar e nelas se notam que os habitantes do mundo real não são tão ruins, estão apenas perdidos!

__ Ainda tem chá de telejornal?
__ Hummm... Não!!! Só restou chá de cogumelo, lsd e chá de novela, quer? Mas evite chá de telejornal, diga não às drogas!

EX-QUASE-FUTURA DECIDIDA da série Cínicos (1)

Terça-feira, Julho 22, 2008



A batida da porta nem acabara quando Fernanda falou em tom de alerta:
__ Preciso conversar contigo!
__ Boa noite pra você também, minha linda! - disse Cleber.
__ Na verdade é uma revelação, e não me importa sua reação, preciso falar antes que...
__ Você viu meus chinelos? Passei o dia em pé – interrompeu se agaixando entre armários e camas.
__ Não adianta fugir, Cleber! Mudar de assunto não vai mudar minha decisão! - o tom era de um choro dramático, quase jocoso.
__ Eu só queria meus chinelos, mas pode falar, tou ouvindo...
__ Sou lésbica... pronto, falei agora está dito, não tem volta. - disse respirando fundo, encostada à parede como se tivesse levado um susto.
__ Humm, legal, tá na moda isso, né?! Também gosto muito de mulher, é bom, foi boa escolha! Além de ser macia a pele, no seu caso é controle de natalidade! - disse enquanto levantava o botijão de gás a procura dos chinelos
__ Desprezível insensível, você reage assim...
__ Achei, ahh meus chinelos. Sabe que passar muito tempo de pé acumula líquidos, é atrapalha drenagem linfática... mas quanto ao negócio de ser lésbica, dou maior força, tenho até duas amigas que não são lésbicas, são bi, disso tenho certeza... posso te apresentar, elas podem te ajudar nessa nova jornada... - disse calçando os chinelos com um prazer de paz.
__Vou precisar mesmo, nunca transei com uma mulher antes... - estava sentada sobre um puf azul, com a cabeça encolhida, absorta em pura reflexão...
__ Mas não é uma contradição ser lésbica e casada com um homem?
__ Quem disse que eu vou continuar casada?
__ Tem Champagne?
__ É isso que você quer, se separar, não pense que esqueci dessas suas amigas, que tem “certeza” que são apenas bi!
__ Mas você não é lésbica?
__ Calma aí, meu querido! Sou lésbica a quatro minutos atrás, antes eu era heterossexual convicta, e, pelo visto chifruda!
__ E dramática! Isso não vai mudar... - disse escolhendo um cd.
__ Já saquei a sua intensão, mas não vai conseguir comigo, eu não vou cair no seu jogo sujo! Pois saiba que não tem divórsio nem transarei com outra mulher... você tava querendo fazer putaria da grossa e ainda não ter responsabilidades... - acusava-o com o dedo em riste.
__ O tão sonhado paraíso masculino! Quando tiver o endereço me dê, tou atrasado pra minha conversão! - disse ouvinda Sarah Voughan.
__ Não meu filho, você tá pensando errado... você não liga a mínima para mim, eu deveria ter escutado minha mãe. - Chorava como uma criança.
__ Quando ela dizia que não deveria casar comigo, que homem como eu não serve para casar? Hoje daria um abraço nela, e abraçaria sua causa com fervor! Você já notou que este porta retratos está sempre torto, acho que é o vento da janela! - disse endireitando a moldura.
__ Você vem almoçar amanhã?
__ Não vai ser lésbica nem vai ter separação?
__ Não!
__ Então tempera o lombo de porco que eu faço no forno amanhã!

VÊ BEM

Quinta-feira, Julho 17, 2008





Vê bem:











Acredita piamente na cara das pessoas, nos contos de vitória e heroísmo, nas virtudes prontas, nas receitas feitas de ser feliz. É, acredita nas lágrimas que escorrem as faces mais herméticas, acredita nos gritos mais agudos, e nos dizeres mais mansos, acredita nos autores, nos músicos, nos filhos e nos amores sem vacilar por um segundo. Aceite tudo como verdade inelutável: você é fraco, a vida é um fatalismo, o homem é produto do meio, tudo está determinado, nada mais adianta, a felcidade está depois da morte, a virtude é ser quem você não é, a honestidade é a mais promissora das virtudes, a mentira é dispensável, se exercer é um pecado, o sexo é sujo, o casamento é eterno, Deus quer um rebanho apático, de luvação e negação daquilo que Ele criou. Acredite em tudo, meu senhor! Como Manso comodista, não lute, não despreenda a força dos seus músculos, nem a energia do pensamento, simplesmente aceite e siga esta atrofia. Cada dia mais pálido, cada dia mais parco, cada dia mais delgado!




E se Deus não te falar diretamente com voz nítida e em bom tom, se teu casamento acabar, se suas virtudes só trouxeram preconceitos e amarras, se os melhores momentos de vida miguante foi passado entre bocas e coxas, se as lágrimas em que você acreditou não passaram de sudorose, se a personagem que criou para si, dentro do teu teatro vital, teve fim sem graça, sem sabor, sem emoção, quando a hora sinistra chegar cobra a tua desgraça à fé; e ela responder-te-á que não tem culpa se o ensinaram errado, não carrega o fardo de uma sociedade míope que não enxergou que a dúvida é base maior da crença, e que crer sem duvidar é ceder à ditadura da preguiça! Mas neste segundo de lucidez já não terá voz de dizer, nem gesto de exemplificar e as pessoas ao seu redor acreditarão que você morreu feliz e que foi descansar!

JEQUITIBÁ

Segunda-feira, Julho 14, 2008



Uma coisa curta, o que seria curto a ponto de satisfazer? Talvez uma frase, mas seria incompleto ou insuficiente, uma citação não encerra o desejo de curto. Ser curto e incrível é fácil, custa é ser curto e crível; essa viela na qual se busca pela definição concreta da brevidade, que não é necessariamente nem coisa nem gente, nem objeto nem sentimento, nem sentido nem sensação é paranóica, longa e delirante. Tudo vem à tona: ela, passado, dia, futuro, casamento, filhos, dinheiro, sucesso, fracasso, mulher, amante, e nada disso é curto sufuciente para satisfazer as cordas cardíacas obsecadas. No fundo tudo é longo demais no seu tempo e o curto figura como um espectro diminuindo o valor de tudo! Mas alguma coisa há de ser curta, embora nada chegue; essa inquietação rouba o sono, tira o sossego, põe olheiras profundas, livros não revelam, filmes são incompletos, um papo não resolve nada, e nesse turbilhão qualquer coisa é demasiadamente longa e massante. Os pensamentos pesquisadores já romperam a metafísica, há muito divagam por filófosos da ansidedade, corre os caminhos mais estreitos do conhecimento em analogias ora baratas ora profundas. E apenas longas delongas consegue. Fechou os livros, estancou os pensamentos, sucurou as emorragias abertas pela procura e foi passear num parque, a procura das coisas concretas e reais que o redimisse dessa busca inútil, e encontrou um jequitibá rosa. Lembrou que a árvore pode viver mais de três mil anos, tocou-a e sentiu que tudo é curto ou longo de acordo com sua referência: a única coisa curta, eficiente e satisfatória é a vida humana!

12 DE JULHO

Sábado, Julho 12, 2008





Perdeu, malandro! Um cerco mudo, de atos e poucas palavras quebrou a resistência dura do malandro. Diante de tanta prova e conquista, apenas restou se render e confessar! Confessar o meu do teu, confessar deliberadamente o que de mim é teu. De mim é teu o melhor livro da minha vida, de mim é teu a audácia, que sem ti não existe. De mim é teu minha orginalidade, que sem sua liberdade morreria. De mim é teu a o orgulho de ser, que sem sua admiração não tinha razão de ser. De mim é teu a humildade, que você me ensinou dentro da sua profunda saberia. De mim é teu o orgulho de ter, está e estará errando, porque é deles que mais vejo tuas qualidades.
Não sei de fato o que de ti é meu, não sei. Escrever em primeira pessoa é um inferno, escrever sobre mim diretamente é uma tortura, sobretudo quando o alvo da escrita é meu esqueleto. Eu sou a liberdade que você me dá, eu sou o humor que você me incute, eu sou perdido sem você. Admiro sua saberia de dizer: que as poeras dos meus erros, que trago na sola, fiquem no capacho e que aqui dentro seja sempre o menino descalço e curioso que a fascinou. É me olhando que enxergo teu valor como mulher, é que vejo a marca na minha alma, é me olhando que avalio, sinto, redimo e atesto a nobreza do nosso amor. Não se faz mais desses, vôou por toda terra, nas aventuras mais loucas, nos becos mais lamacentos, mas é no teu peito que eu encontro a paz, não há mim sem ti. Em onze anos nunca ouvi a frase sepultura: você tem que mudar isso ou aquilo, nunca te vi reprimir uma paixão minha. Quem ama deseja amplidão, quando procuro a veste de uma virtude é teu peito que abro, porque sei que nunca encontrei um ser humano tão cheio de virtudes e que me tenha sido tão leal. Eu me desconcerto, era capaz de descrever a vida de um estranho, mas tenho imensa dificuldade em a colocar no papel. No peito você é muit mais que uma série de linhas, você é minha vida inteira, te vi fazer 19, hoje te vejo fazer 29 e te sinto infinitamente melhor, essa minha jornada ao teu lado é um privilégio, que você sabe o quanto eu me orgulho, minha cúmplice, minha amiga, minha puta, minha esposa. Feliz aniversário Wal!

FRAGMENTO

Quinta-feira, Julho 10, 2008



Fragmento é uma parte do nada, um trecho quem nem conclui, nem sugere. Uma coisinha jogada no reino das coisas perdidas, onde param guarda-chuvas e canetas bics. Nesse reino habitam as lembranças vagas, os sentimentos esquecidos, as frases mal ditas e ouvidas, se escondem as vontades incobertas e os desejos não revelados, os sonhos frustrados, as invejas não confessadas, os sabores amargos das derrotas. Mas se escondem também os prazeres pueris, esquecidos no crescer do homem, se escondem as sensações primeiras, que a memória não pode mais tocar: o sabor do primeiro beijo, o cheiro de alguém que se foi, o primeiro encontro de mãos que se possuirão, um verso antigo, parte de um filme que impressionou; tudo em milésimos de segundos. Nós somos as somas dos fragmentos vivos, um chão de mosaico de estilhaços de sentimentos mudos. Os fragmentos são os verdadeiros fantasmas da alma humana!

INTERVALO DE LUCIDEZ

Domingo, Julho 06, 2008

Foto do Sebastião Salgado, Trabalhador em linha montagem na Índia

1´ O trânsito parado, a vida à meia boca, o café, em copo americano, quente de fumaçar!
2´ A prestação do ap não para de aumentar, sua mulher não para engordar, não há nada a fazer!
3´ O primeiro gole queima o lábio, a primeira ousadia frustra e traumatiza a vida!
4´ Não há a quem se queixar do café, não há a quem se confessar da vida, à mulher seria fraco, a um amigo seria chacota, ao filho mataria o mito!
5´ Café amargo, como o silêncio de quem engole as próprias palavras!
6´ Uma criança chora, um corpo tomba sem vida, alguém passa fome e ele beberica o café!
7´ Meio do intervalo, meio copo, meia vida, meios sonhos, meias realizações e toda ausência!
8´ O café vai-se aos poucos, como ele opaco se permitindo o perigo de refletir
9´ O Copo está vazio, mas o segura como coisa real, com o resto de calor minguante sugerindo a vida que passa!
10´ Aquela mulher é bonita, aquele carro o merece, aquela bebida seria boa, muitas hipóteses!
11´ Poucas chances, o intervalo pretende acabar como o café e anseia pelo fim da existência!
12´ No fundo os filhos não o admiram, dão-lhe a pena de um esforçado ineficiente, engole a saliva!
13´ Não deveria tomar açúcar, deveria ter lido mais, deveria ter casado com ela, deveria ter ido para faculdade, deveria ter evitado esse intervalo!
14´ A ansiedade do café finito é ansiedade da sua vida que tem outro dono, ansidedade por ser um bom servo, ansiedade por acabar logo com isso!
15´ Chega de lucidez, é preciso voltar para vida real, chega dessa frescura improdutiva de melancolia reflexiva, é preciso apertar mais parafusos! Chega de refletir porque viver é preciso!

O apito da fábrica recolhe o bom rebanho, que, manso, vai apertar mais parafusos para a vida real!

O MALANDRO E A MERETRIZ

Sexta-feira, Julho 04, 2008


O ambiente era impróprio ao amor! Bordel, cabaré, inferninho, casa de putas, antro, enfim há muitos nomes para um lugar onde se pratica sexo por dinheiro. Parece uma relação prática e clara: dinheiro na mão, roupa no chão; mas não, aliás o que é prático quando se trata do homem? Nesses ambientes praticam sexo, mas o que os homens procuram, na verdade, é romance. No fundo o sonho das meninas era justamente esse, o cliente entrava, escolhia, pagava e comia, sem alterar a ordem. Mas eles querem palavras doces, caras e gestos de paixão, promessas e possibilidades, insinuação e clima, enfim querem a mentira! É nessa pequena brecha, deste universo, que começam os problemas de verdade. O movimento da casa estava muito fraco e o som eram baladas clichês românticas.

__ Porque me tiraste para dançar? Eu sei bem que não és um cliente!
__ A música é boa eu também sei que danças bem e sei que não se trata de umazinha!
__ Não vem com esse papo, eu não tenho nada o que perder para ti. – Ele explodiu numa gargalhada – É verdade o que falam de ti? Eu sempre te vejo aqui, e gostaria de saber se é verdade o que dizem!
__ Que eu sou um vigarista, um golpista, um malandro, um 171? É a mais pura verdade... disse num riso largo e espalhado, daqueles de satisfação.
__ Além de tudo és cínico, descarado... É nessa medida de vagabundo que eu me acabo...
__ No fundo fazemos parte do mesmo jogo, agora mesmo me disseste o que dirias a qualquer outro cliente, por um segundo tiveste o lapso de pensar que eu pagaria um quarto para ti – riu ainda mais, o que foi respondido com um tapa no peito, tapinha, daqueles de dengo; os dois falavam a mesma língua.
__ És malandro demais... sabes onde vai cair a pedra que ainda nem atirei...
__ Sabedoria de rapina, princesa! Eu não me diferencio de ti em nada, no fundo ganhamos nesse engano, nessa necessidade de mentira e fingimento... finges ser a namoradinha, o cliente finge ser o macho dominante eu apenas cato as migalhas que caem desse banquete de vaidades! Na verdade eu não engano ninguém, a mentira é um pacto, eles querem ouvir e ser e nós alimentamos apenas...
__ Entendeste o jogo muito bem, mas não téns vergonha dessa vida que levas?
__ Na verdade era bonitinho dizer que sim, que pretendo mudar, o mesmo argumento que as mesninas, inclusive tu, usam. Mas confesso que não! Adoro essa vida, massageia meu ego diariamente saber exatamente o que o sujeito quis ouvir no momento exato de abrir a carteira em abundância, que me possibilitou negócios fabulosos. Apenas por um elogio banal, um súplica que ele trazia obviamente estampada na testa...
__ Deveria dizer o hálibe das meninas? Mas não digo, porque se tem uma coisa que eu gosto é dessa vida, dessa putaria diária, dessas orgias maravilhosas, desses idiotas que sustentam meus luxos mais caprichosos. Se ser vagabunda é bom ou ruim, confesso que nunca pensei a fundo sobre isso, nem estou preocupada... - disse rindo.
__ Então somos livres! Eu não presto e confesso, tu não prestas e assumes, logo vestimos a camisa da liberdade, assumimos nossa existência tal qual como é, sem falsas pretensões ou capas, muito menos possibilidade de cobranças, se assumimos todas os defeitos, cobrar o que? Essa é a primeira vez que estou falando tão abertamente sobre mim
__ Já disse que não tenho nada... - calou-a com um beijo romântico e longo
__ Nunca me senti tão avontade para ser vigarista quanto agora...
__ Nunca tive tanto orgulho em ser puta quanto depois desse beijo...
__ Não precisamos nos enganar, eu já disse que carrego todos os defeitos, me disseste as tuas vilezas, vamos começar assim, dos defeitos para as virtudes, em ascensão, do podre para o nobre?
__ Que podre, garoto? Não vês que agora estamos sendo mais nobres que a nobreza? Quando te despes e te revelas em confissão, te assumes com prazer, eu o mesmo, estamos sendo, antes de mais nada, nobres... tou te devorando deliciosamente pelos teus defeitos, nem sei se quero tuas virtudes...
__ Aceitação, como num altar? Cúmplices no crime nosso de cada dia?
__ Estamos casando aqui e agora, malandro, nessa dança, nesse nosso ofício de enganar fomos traídos pela verdade, nossa igreja é esse cabaré, nossa água benta é seu whisky, não te largo mais...
__ No meio dessa sujeira toda germinou um amor puro.
__ Mais que puro, honrado e batizado em verdade e sinceridade! - Um beijo foram as alianças um amor de dar inveja!

AUTOFAGIA

Quarta-feira, Julho 02, 2008



Não era submisso! Fazia a linha democrata pós-moderno, dado à conciliação, à compreensão e ao diálogo permanente. Charles não merecia uma Mércia na vida, autoritária, agocéntrica, narcisista, e não foi o clichê “dos opostos que se atraem”; ele simplesmente não sabia dessas falhas tão graves. Mas uma pessoa dotada do espírito que tinha acreditava, cria na mobilidade dos valores, era convicto de que aquele monstro comtemporâneo, alimentado pelas máquinas digitais e os parcos minutos de fama, iria mudar.


A fé é um sentimento caro! Ele foi exposto às humilhações mais tórridas, aos vexames de corar os mais sem-vergonhas. Gritos, ofensas, xingamentos, cobranças, brigas horrendas pelo simples ato banal de brigar, como modo sadista de maltratar o moço e passar o tempo. Ele não se defendia em pró do tal “momento certo” para falar, era politicamente correto. Contudo esse interdito não chegava porque antes do diálogo decisivo, que ensaiou dezenas de vezes, seu coração se enchia de perdão, e perdão só serve para dar, logo ele dava. Assim foi a rotina de assédio moral, de tentativas diárias de desmoraliazação, de destruição da dignidade masculina, de subjugamento, que era sempre amortecido no seu silêncio; e se engana quem pensa que era covardia ou medo, no seu silência havia uma trgédia russa, uma pausa tchecoviana. De súbito eles passaram um dia bem, depois de dois anos de inferno diário. Nenhuma palavra ou gesto áspero, aliás um dia de muito carinho e afago, até elogios, coisa inédita, aconteceu dela para ele! Imediatamente a seguir ao elogio:


__ Senta aí agora! - disse Charles num tom grosso e completamente estranho, falava firme em tom forte, mas sem gritar, coisa de gente convicta – ou você se senta ou boto a sua para dentro e não deixo um dente inteiro! Dois anos... dois anos e um elogio, um... - ela sentada e assombrada enquanto ele falava de dedo em riste, andando de um lado para o outro, sem titubear o olhar dos seus olhos – eu fui capaz de aguentar tudo de você, menos o cinismo. Me elogiar foi seu golpe final naquilo que lhe restava de caráter, porque eu sei que você não presta, e você sabe que eu sei, nem tente argumentar comigo! Esse papo de entender, acreditar, tudo balela, no fundo eu sempre soube que você era mesquinha, vazia, insegura! Esse seu narcisismo de querer ser a mais gostosa, a melhor mulher do meio é complexo de inferioridade, no fundo você se sente pior que as outras, menor, ínfima. E sente porque nós sabemos que é! Nós sabemos que você é uma farsa ambulante, uma vítima de si mesma que fez da vaidade uma escada para por o nariz de fora desse pântano podre que é sua cabeça. Quantas vezes tive náuseas de ouvir suas santidades quando sabia que você era mais vil, mais torpe que qualquer outra pessoa, aliás sempre que você encaranva a moralista eu achava que era inveja, no fundo uma cobiça por cometer os atos de delito, que você excitada, só conseguia condenar! Ordinária e hipócrita! Quanto mais você enverniza essa sua plástica, mais alimenta o bicho que te devora. Você é fútil e banal, fugaz como um vento! Quando você armava “disse me disse” só para estar no meio dos burburinhos era o único modo que achava de se sentir viva, mas quando passava era obrigada a criar outro e outro e outro, como num vício para alimentar esse seu vazio, essa sua necessidade de ser vista. Era isso e é isso que você quer: ser vista, atenção. Na prática você não passa de uma criança com as mazelas de adulto. De quem você sentiu rejeição, do seu pai ou da sua mãe? Quando você criava aquelas cenas de ciúmes, criava como um autor de novela, cenas óbvias que não engava nem a a uma criança, eu fazia de conta que acreditava só para passar o tempo, mas no quando das suas costas eu ria do quanto era ridícula e infantil. Nunca a admirei, nem esperei mudança de sua parte, nunca... sempre soube que se achava feia, menor e inferior. Nunca foi novidade que essa sua carência excessiva de atenção era uma patologia não confessa, só que nem o mundo é um manicômio, nem eu sou psiquiatra! Seu esquema de vida é uma draga, que gera exclusivamente dissabor, perdas e danos para você mesma, uma especialista em dar um tiro no próprio pé. Você não precisa de inimigos, basta uma câmera digital, uma roupa curta e meia dúzia de elogios vulgares para continuar essa sua dieta autofágica. Menina mimada você um fracasso, uma lástima... e não se engane, continei casado consigo por uma razão muito simples: nunca a levei a sério, tirei dessa história o maior benefício possível enquanto você estava presa a sua imagem no espelho. Agora, seu dejeto rejeitado, tire mil fotos, nas poses mais vulgares, se assemelhe às meretrizes mais reles, sem que as ofenda, para colher o máximo de elogios gratuitos dos mais variados idiotas, e o mais importante, acredite neles. - jogou a chave sobre o rosto dela – pegue, que desse convívio levo as lembranças apenas como modo de não repetir essa experiência psicopata! Quando me elogiou você rompeu um linha muito frágil, até então era apenas esse lixo psíquico e social que você é, mas depois do cinismo virou uma questão de caráter. Doida, fútil, banal, vulgar ainda dá para aguentar mas mal caráter não! Aliás esqueça tudo que eu disse aqui e agora, esqueça, faça de conta que nada disso aconteceu, siga exatamente no ritmo em que você vai, porque é um barranco, o mal que posso te desejar é uma overdose de ti mesma. Vai assim e espera o tempo te jogar rugas na cara até secar como um maracujá. Prepotente, arrogante, soberba, tão cheia de si e só, apenas só. É destino bonito e justo para seu quilate... alguma coisa deve estar errado, tão gostosa e ninguém aguenta, tão maravilhosa e ninguém admira, tão madura e se alimenta agrados ao ego, você é, antes de mais nada, patética. Perdoaria tudo, menos o elogio!


Ele bateu a porta, sumiu definitivamente e ela o amou para sempre, e para sempre andou atrás de quem lhe fosse capaz de repetir as mesmas palavras. Arruinou vidas, acabou lares e chorava todo santo dia, repetindo para si mesma cada palavra que ouvira e buscava em vão!

BEIJO NO OLHO

Domingo, Junho 29, 2008



Uma risada estridente de criança chegava ao fim do beco lamacento, que formava quase um s em seu contorno em chão de barro, pequenas poças de lama, na verdade água do esgoto que passava a céu aberto e empoçou; algumas pedras ajudavam a não pisar nos dejetos humanos que se misturavam aos sacos plásticos, tudo isso num odor de miséria e esquecimento, mas em espaços curtos e regulares ouvia-se as gargalhadas deliciosas de uma criança! O som ultrapassava as fachadas desordenadas, os muros pequenos e estreitos, as construções inacabadas, alguns barracos de madeira e chegava à rua. Era apenas um menino de quatro anos brincando com o pai. Ele tinha um pedaço de madeira nas mãos e fingia ter um revólver, toda vez que disparava o pai morria, mas logo era acordado com um beijo no olho. O pai ficava imóvel e a criança podia beijar em qualquer parte, mas permanecia estático, quando o beijo tocava de leve o olho o pai levantava, dava-lhe um susto e ele explodia em riso, lindo!


Um pequeno agito ouvia-se na rua, algumas pessoas em grupos de três, quatro seguiam para um mesmo local, todos a passos largos e com cochichos. Uma pequena multidão ia se formando aos poucos, pessoas chegavam de todas as direções formando um círculo, algumas pessoas iam mais adentro e voltavam com a mão na boca, outras simplesmente conversavam como se nada estivesse acontecendo de anormal. Uma mulher nova corre, arrastando duas crianças pelos braços e se ouve de longe um brado desesperado! A multidão respeita o grito por pouco tempo, segundos depois ouvia-se comentários sorrateiros: “era ladrão”, “dizem que traficava”, “parece mesmo que foi acerto de contas”, “disseram no bar que ele tava saindo com uma mulher casada”, “ na verdade nunca ouvi falar mal dele”. Mas tudo dito à meia boca, como um sussurro coletivo e infernal. Concretos e bom tom foram apenas os quatro tiros que atingiram o peito do jovem negro, o uivo da sua esposa e o “levanta papai”. O garoto inrrompeu a multidão, beijou o olho do pai, e disse, com a face enigmática, que ficava na linha delicada entre o choro e riso, como se contivesse lá a esperança de tudo ser apenas a extensão da brincadeira, "levanta papai", que insistiu em não levantar!


Acabou a brincadeira, acabou a vida, acabou a criança, acabou o pai, acabou a família, acabou o sonho, acabou o modelo e esse sistema de vida e morte continua firme e vencedor!

NESSES DIAS

Terça-feira, Junho 24, 2008



Há dias em que a alma acorda em desassossego, como se o corpo, invólucro carnal, fosse um ambiente claustrofóbico e desoxigendado. Ela bate o pé, senta defronte as certezas, bafora sobre as convicções, debocha dos sentimentos insólitos, provoca a todos e quando tudo está pandemônio ela simplesmente grita: “ai de ti harmonia, ai de ti”. Nessa agonia a alma busca o ponto fraco daquela sua certeza indubitável, semea a contradição naquela posição mais sólida, incita ao ato mais paradoxal, reduz o bom senso uma mania democrata e demagoga. Cria os tiques nervorsos, as pernas não param, algumas palavras escapam em público, só pra envergonhar. Nesses dias briga-se por qualquer motivo e sente-se a contradição como sentimento: saudade de quem não gostamos, ou não assumimos que não gostamos, falta de quem nos fez mal, cobiça por situações que não nos caberia nunca.


Nesses dias a alma entranha as mão nas nossas fibras musculares, de dentro pra fora e nos sacode como se fora alguém a nos sacodir pela camisa. Balança-se como se houvesse um terremoto. Acorda-se cedo (quando se dorme!), procura-se justamente por aquela bebida que não há, senti-se vontade de ir exatamente onde é impossível, queremos uma vida que está longe alcance, no fundo a alma acorda com uma fome de impotência, imprimindo a cada acontecimento, por mais banal que seja, a incapacidade do desejo. Ela não chora, nem deixa chorar; ela enfia o punhal agudo da insignificância humana e no preciso momento em que o grito vai alardear, retia-o com carinho e susta o grito preparado. Ela humilha ao extremo e no preciso momento em que o ser vai abdicar do amor próprio, suspende a sessão de tortura e faz um afago. Nos dias em que alma decreta o desassossego o ser goniza mas não morre, chora mas não lacrimeja, pede mas não implora, cai mas não machuca! Puro capricho desse divórcio interno e temporário.


Engane a alma, nos dias de agonia um café duplo bem amargo e, como a uma criança, leve-a para passear numa caminhada longa e domorada. Cansada, ela adormece, o superego volta ao controle; e quando acordar, nem vai lembrar dessa birra infantil! Isso é o que dá dar poder a criança!

 
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