
Não era submisso! Fazia a linha democrata pós-moderno, dado à conciliação, à compreensão e ao diálogo permanente. Charles não merecia uma Mércia na vida, autoritária, agocéntrica, narcisista, e não foi o clichê “dos opostos que se atraem”; ele simplesmente não sabia dessas falhas tão graves. Mas uma pessoa dotada do espírito que tinha acreditava, cria na mobilidade dos valores, era convicto de que aquele monstro comtemporâneo, alimentado pelas máquinas digitais e os parcos minutos de fama, iria mudar.
A fé é um sentimento caro! Ele foi exposto às humilhações mais tórridas, aos vexames de corar os mais sem-vergonhas. Gritos, ofensas, xingamentos, cobranças, brigas horrendas pelo simples ato banal de brigar, como modo sadista de maltratar o moço e passar o tempo. Ele não se defendia em pró do tal “momento certo” para falar, era politicamente correto. Contudo esse interdito não chegava porque antes do diálogo decisivo, que ensaiou dezenas de vezes, seu coração se enchia de perdão, e perdão só serve para dar, logo ele dava. Assim foi a rotina de assédio moral, de tentativas diárias de desmoraliazação, de destruição da dignidade masculina, de subjugamento, que era sempre amortecido no seu silêncio; e se engana quem pensa que era covardia ou medo, no seu silência havia uma trgédia russa, uma pausa tchecoviana. De súbito eles passaram um dia bem, depois de dois anos de inferno diário. Nenhuma palavra ou gesto áspero, aliás um dia de muito carinho e afago, até elogios, coisa inédita, aconteceu dela para ele! Imediatamente a seguir ao elogio:
__ Senta aí agora! - disse Charles num tom grosso e completamente estranho, falava firme em tom forte, mas sem gritar, coisa de gente convicta – ou você se senta ou boto a sua para dentro e não deixo um dente inteiro! Dois anos... dois anos e um elogio, um... - ela sentada e assombrada enquanto ele falava de dedo em riste, andando de um lado para o outro, sem titubear o olhar dos seus olhos – eu fui capaz de aguentar tudo de você, menos o cinismo. Me elogiar foi seu golpe final naquilo que lhe restava de caráter, porque eu sei que você não presta, e você sabe que eu sei, nem tente argumentar comigo! Esse papo de entender, acreditar, tudo balela, no fundo eu sempre soube que você era mesquinha, vazia, insegura! Esse seu narcisismo de querer ser a mais gostosa, a melhor mulher do meio é complexo de inferioridade, no fundo você se sente pior que as outras, menor, ínfima. E sente porque nós sabemos que é! Nós sabemos que você é uma farsa ambulante, uma vítima de si mesma que fez da vaidade uma escada para por o nariz de fora desse pântano podre que é sua cabeça. Quantas vezes tive náuseas de ouvir suas santidades quando sabia que você era mais vil, mais torpe que qualquer outra pessoa, aliás sempre que você encaranva a moralista eu achava que era inveja, no fundo uma cobiça por cometer os atos de delito, que você excitada, só conseguia condenar! Ordinária e hipócrita! Quanto mais você enverniza essa sua plástica, mais alimenta o bicho que te devora. Você é fútil e banal, fugaz como um vento! Quando você armava “disse me disse” só para estar no meio dos burburinhos era o único modo que achava de se sentir viva, mas quando passava era obrigada a criar outro e outro e outro, como num vício para alimentar esse seu vazio, essa sua necessidade de ser vista. Era isso e é isso que você quer: ser vista, atenção. Na prática você não passa de uma criança com as mazelas de adulto. De quem você sentiu rejeição, do seu pai ou da sua mãe? Quando você criava aquelas cenas de ciúmes, criava como um autor de novela, cenas óbvias que não engava nem a a uma criança, eu fazia de conta que acreditava só para passar o tempo, mas no quando das suas costas eu ria do quanto era ridícula e infantil. Nunca a admirei, nem esperei mudança de sua parte, nunca... sempre soube que se achava feia, menor e inferior. Nunca foi novidade que essa sua carência excessiva de atenção era uma patologia não confessa, só que nem o mundo é um manicômio, nem eu sou psiquiatra! Seu esquema de vida é uma draga, que gera exclusivamente dissabor, perdas e danos para você mesma, uma especialista em dar um tiro no próprio pé. Você não precisa de inimigos, basta uma câmera digital, uma roupa curta e meia dúzia de elogios vulgares para continuar essa sua dieta autofágica. Menina mimada você um fracasso, uma lástima... e não se engane, continei casado consigo por uma razão muito simples: nunca a levei a sério, tirei dessa história o maior benefício possível enquanto você estava presa a sua imagem no espelho. Agora, seu dejeto rejeitado, tire mil fotos, nas poses mais vulgares, se assemelhe às meretrizes mais reles, sem que as ofenda, para colher o máximo de elogios gratuitos dos mais variados idiotas, e o mais importante, acredite neles. - jogou a chave sobre o rosto dela – pegue, que desse convívio levo as lembranças apenas como modo de não repetir essa experiência psicopata! Quando me elogiou você rompeu um linha muito frágil, até então era apenas esse lixo psíquico e social que você é, mas depois do cinismo virou uma questão de caráter. Doida, fútil, banal, vulgar ainda dá para aguentar mas mal caráter não! Aliás esqueça tudo que eu disse aqui e agora, esqueça, faça de conta que nada disso aconteceu, siga exatamente no ritmo em que você vai, porque é um barranco, o mal que posso te desejar é uma overdose de ti mesma. Vai assim e espera o tempo te jogar rugas na cara até secar como um maracujá. Prepotente, arrogante, soberba, tão cheia de si e só, apenas só. É destino bonito e justo para seu quilate... alguma coisa deve estar errado, tão gostosa e ninguém aguenta, tão maravilhosa e ninguém admira, tão madura e se alimenta agrados ao ego, você é, antes de mais nada, patética. Perdoaria tudo, menos o elogio!
Ele bateu a porta, sumiu definitivamente e ela o amou para sempre, e para sempre andou atrás de quem lhe fosse capaz de repetir as mesmas palavras. Arruinou vidas, acabou lares e chorava todo santo dia, repetindo para si mesma cada palavra que ouvira e buscava em vão!